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Burca em São Paulo? Conheça a roupa típica que cobriu as paulistanas por séculos

Autoridades chegaram a fazer leis para proibir o uso, mas não tiveram resultado.

Por
Rafael Lorenzo M. Barretti
Publicado em
pintura mostrando uma mulher paulista
Fonte da imagem: Imagem: Pedro Correa Lago/ Iconografia paulistana do século XIX/ Metalivros/BM&F/ Estadão.

A grande maioria dos brasileiros olha com muito estranhamento quando ouve falar em burca

A vestimenta tradicional de países muçulmanos, como Paquistão e Afeganistão, cobre todo o corpo da mulher, incluindo o rosto.

O que poucas pessoas sabem é que as paulistanas já utilizaram vestimentas muito parecidas durante séculos

Relatos guardados na Biblioteca Nacional e na Câmara Municipal de São Paulo levantados por Luciana Garbin, do Estadão, trazem mais detalhes sobre essas roupas.

Os documentos falam que as paulistanas andavam “rebuçadas em baetas”, o que significa escondidas em tecidos de algodão grosso.

Uma aquarela datada do ano de 1820 ajuda a ilustrar a forma como eram essas roupas.

Imagem: Pedro Correa Lago/ Iconografia paulistana do século XIX/ Metalivros/BM&F/ Estadão.
Imagem: Pedro Correa Lago/ Iconografia paulistana do século XIX/ Metalivros/BM&F/ Estadão.

Essas roupas tiveram origem em vestimentas usadas em Portugal e na Espanha durante a idade média, porém elas foram deixadas para trás antes do século XVI

Uma das principais teorias acerca de sua origem é que elas tenham sido inspiradas nas burcas islâmicas, por conta da influência árabe na Península Ibérica

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Por que as mulheres continuaram usando essas roupas em São Paulo?

Essas vestimentas se mantiveram em São Paulo muito tempo após seu uso ser deixado de lado na Europa e nas principais cidades brasileiras até então

Vale lembrar que naquela época, a capital paulista era uma cidade pequena, com cerca de 50 ruas e 20 mil habitantes

Por isso, estava longe das principais mudanças e era marcada pelos hábitos provincianos

Outra coisa que pode ter ajudado a preservar os véus na região foi uma epidemia de varíola, já que a doença deixa marcas no rosto, o que muitas mulheres poderiam querer esconder

Além disso, ele também disfarçava a pobreza, já que mulheres livres de baixa renda podiam fazer trabalhos considerados degradantes ou de escravos sem mostrar seus rostos.

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O governo tentou acabar com o costume

As autoridades portuguesas viam o hábito como um problema de ordem pública. A primeira proibição conhecida aconteceu em 1649.

Uma lei vetou o uso de rebuços e chapéus que escondessem o rosto das mulheres. Meses depois, um novo alvará reforçou a ordem e proibiu qualquer cobertura parcial da face. Mas as paulistanas ignoraram a proibição.

Mais de um século depois, em 1775, o governador da Capitania de São Paulo, Martim Lopes Lôbo de Saldanha, voltou ao tema.

Segundo o governador, o disfarce facilitava encontros secretos e ajudava criminosos a escapar da identificação.

Naquele mesmo ano, ele determinou que as mulheres deveriam circular com o rosto descoberto até o peito. Quem desobedecesse poderia receber multa ou prisão.

Apesar da determinação, as mulheres paulistanas não abriram mão de suas vestimentas.

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A ordem de D. João VI

No começo do século XIX, o governador Antônio José da Franca e Horta escreveu para Dom João VI pedindo medidas mais duras contra o uso das baetas.

Ele argumentava que as roupas atrapalhavam a polícia, dificultavam a identificação das pessoas e mantinham um costume já proibido havia décadas.

Em 30 de agosto de 1810, uma Ordem Régia proibiu oficialmente que mulheres paulistas andassem “embuçadas em baetas”.

Mulheres consideradas nobres pagariam multa de 20 mil réis. Mulheres pobres, negras libertas ou “mulatas forras” poderiam receber multa menor e até oito dias de prisão.

Além disso, os nomes das infratoras seriam registrados oficialmente pela administração pública e as penas poderiam ser mais duras em caso de reincidência.

Mesmo assim, o hábito não desapareceu de imediato, o desaparecimento das “burcas paulistas” aconteceu aos poucos.

Ao longo do século XIX, o crescimento de São Paulo e a maior influência da corte portuguesa alteraram os costumes locais.

A chegada de estudantes de Direito vindos de várias regiões do Brasil também ajudou a transformar a vida social da cidade.

Mesmo assim, ainda era possível encontrar mulheres cobertas até meados dos oitocentos, porém, o costume estava restrito principalmente às escravas e às mulheres mais pobres.

Com o avanço da urbanização e das mudanças culturais, as mantilhas desapareceram das ruas paulistanas.