Decisão cita ausência de funk, sertanejo e cultura afro-brasileira como motivo da condenação.

Duas irmãs, uma com 11 e a outra com 15 anos, leem cerca de 30 livros por ano. Estudam inglês, latim, piano, teoria musical e recebem aulas em casa com acompanhamento dos pais.
De acordo com reportagem da Gazeta do Povo, a mãe voltou à universidade, formou-se em Matemática e Pedagogia para poder aprimorar o ensino de suas filhas.
Ainda assim, um casal do interior de São Paulo foi condenado pela justiça. O motivo? Abandono intelectual.
O caso aconteceu em Jales, no noroeste paulista. A Justiça condenou o casal a 50 dias de detenção. O crime é previsto quando os responsáveis deixam de garantir a instrução formal obrigatória dos filhos.
Que tal receber notícias todos os dias em seu WhatsApp? Clique aqui e entre para o canal oficial da Brasil Paralelo.
De acordo com a reportagem, a decisão afirmou que o problema não estaria apenas no conteúdo ensinado, mas na ausência da convivência escolar e de contato com diferentes visões de mundo.
O magistrado teria argumentado que as meninas não teriam acesso adequado a temas previstos na formação escolar, como diversidade cultural, sexualidade, gênero, religiões diferentes e cultura afro-brasileira.
Também citou como preocupação o fato de as jovens não consumirem estilos musicais como funk e sertanejo e terem contato predominante com arte sacra.
Para a família, a interpretação ignora o desempenho acadêmico das filhas e transforma uma escolha educacional em punição criminal.
Os pais afirmam que as meninas participam de atividades comunitárias, canto, catequese e convivem socialmente fora da escola tradicional. A defesa informou que recorrerá da decisão.
Que tal receber notícias todos os dias em seu E-mail? Clique aqui e receba de graça o Resumo BP.
O ensino domiciliar vive uma indefinição legal no Brasil.
Em 2018, o STF decidiu que o homeschooling não é inconstitucional, mas afirmou que ele só pode existir com regulamentação federal aprovada pelo Congresso.
Na prática, isso significa que famílias que optam pelo modelo continuam vulneráveis a processos por abandono intelectual.
Atualmente, um projeto para regulamentar o homeschooling, o PL 1.338/2022, aguarda votação no Senado. O texto prevê critérios de avaliação, acompanhamento e registro das famílias educadoras.
Nos Estados Unidos, o ensino domiciliar é permitido nos 50 estados, embora as regras variem. Alguns exigem avaliações frequentes; outros concedem ampla autonomia às famílias.
Segundo o National Home Education Research Institute, cerca de 3,4 milhões de estudantes americanos estudavam em casa entre 2024 e 2025, aproximadamente 6% da população escolar.
Pesquisas internacionais apontam que alunos em homeschooling frequentemente apresentam desempenho acima da média em testes padronizados.
Em 2025, a UNESCO reconheceu oficialmente a educação domiciliar como modalidade legítima de ensino.
Mas com uma condição: o modelo precisa seguir padrões mínimos de qualidade e supervisão estatal.
O órgão afirma que famílias têm direito de escolher como educar os filhos, enquanto governos têm o dever de garantir que crianças recebam educação adequada, proteção e socialização.
O relatório também reconhece que ainda faltam pesquisas amplas sobre os efeitos do homeschooling na convivência social.
Por trás do caso de Jales pode haver uma discussão maior.
Instituições como a UNICEF argumentam que escolas funcionam como uma rede de proteção infantil.
Já defensores afirmam que educação não depende obrigatoriamente da sala de aula e que cabe às famílias decidir qual modelo melhor atende aos filhos.
Existem muitas camadas para entender o que leva pais a optar pelo ensino domiciliar e por que essa modalidade enfrenta resistência de críticos e especialistas.
Para aprofundar esse debate, a Brasil Paralelo recebeu Tales Melo e Karen Mortean no podcast Conversa Paralela.
O episódio discute os motivos que levam famílias ao homeschooling, além dos impasses jurídicos que envolvem um tema que ainda divide opiniões. Assista abaixo:
Como um veículo independente, não aceitamos dinheiro público. O que financia nossa estrutura são as assinaturas de cada pessoa que acredita em nossa causa.
Quanto mais pessoas tivermos conosco nesta missão, mais longe iremos. Por isso, agradecemos o apoio de todos.
Seja também um membro da Brasil Paralelo e nos ajude a expandir nosso jornalismo.