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Filhas leem 30 livros por ano, mas pais são condenados por abandono intelectual

Decisão cita ausência de funk, sertanejo e cultura afro-brasileira como motivo da condenação.

Por
Gabriel Costa
Publicado em
Família
Fonte da imagem: Gerada por IA

Duas irmãs, uma com 11 e a outra com 15 anos, leem cerca de 30 livros por ano. Estudam inglês, latim, piano, teoria musical e recebem aulas em casa com acompanhamento dos pais.

De acordo com reportagem da Gazeta do Povo, a mãe voltou à universidade, formou-se em Matemática e Pedagogia para poder aprimorar o ensino de suas filhas.

Ainda assim, um casal do interior de São Paulo foi condenado pela justiça. O motivo? Abandono intelectual.

O caso aconteceu em Jales, no noroeste paulista. A Justiça condenou o casal a 50 dias de detenção. O crime é previsto quando os responsáveis deixam de garantir a instrução formal obrigatória dos filhos.

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Justiça citou ausência de funk, sertanejo e diversidade cultural

De acordo com a reportagem, a decisão afirmou que o problema não estaria apenas no conteúdo ensinado, mas na ausência da convivência escolar e de contato com diferentes visões de mundo.

O magistrado teria argumentado que as meninas não teriam acesso adequado a temas previstos na formação escolar, como diversidade cultural, sexualidade, gênero, religiões diferentes e cultura afro-brasileira.

Também citou como preocupação o fato de as jovens não consumirem estilos musicais como funk e sertanejo e terem contato predominante com arte sacra.

Para a família, a interpretação ignora o desempenho acadêmico das filhas e transforma uma escolha educacional em punição criminal.

Os pais afirmam que as meninas participam de atividades comunitárias, canto, catequese e convivem socialmente fora da escola tradicional. A defesa informou que recorrerá da decisão.

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Situação do ensino domiciliar no Brasil

O ensino domiciliar vive uma indefinição legal no Brasil.

Em 2018, o STF decidiu que o homeschooling não é inconstitucional, mas afirmou que ele só pode existir com regulamentação federal aprovada pelo Congresso.

Na prática, isso significa que famílias que optam pelo modelo continuam vulneráveis a processos por abandono intelectual.

Atualmente, um projeto para regulamentar o homeschooling, o PL 1.338/2022, aguarda votação no Senado. O texto prevê critérios de avaliação, acompanhamento e registro das famílias educadoras.

O Brasil discute enquanto outros países regulamentam

Nos Estados Unidos, o ensino domiciliar é permitido nos 50 estados, embora as regras variem. Alguns exigem avaliações frequentes; outros concedem ampla autonomia às famílias.

Segundo o National Home Education Research Institute, cerca de 3,4 milhões de estudantes americanos estudavam em casa entre 2024 e 2025, aproximadamente 6% da população escolar.

Pesquisas internacionais apontam que alunos em homeschooling frequentemente apresentam desempenho acima da média em testes padronizados.

O Homeschooling é consideradas legítima pela UNESCO

Em 2025, a UNESCO reconheceu oficialmente a educação domiciliar como modalidade legítima de ensino.

Mas com uma condição: o modelo precisa seguir padrões mínimos de qualidade e supervisão estatal.

O órgão afirma que famílias têm direito de escolher como educar os filhos, enquanto governos têm o dever de garantir que crianças recebam educação adequada, proteção e socialização.

O relatório também reconhece que ainda faltam pesquisas amplas sobre os efeitos do homeschooling na convivência social.

Por que famílias escolhem tirar os filhos da escola?

Por trás do caso de Jales pode haver uma discussão maior.

Instituições como a UNICEF argumentam que escolas funcionam como uma rede de proteção infantil.

Já defensores afirmam que educação não depende obrigatoriamente da sala de aula e que cabe às famílias decidir qual modelo melhor atende aos filhos.

Existem muitas camadas para entender o que leva pais a optar pelo ensino domiciliar e por que essa modalidade enfrenta resistência de críticos e especialistas.

Para aprofundar esse debate, a Brasil Paralelo recebeu Tales Melo e Karen Mortean no podcast Conversa Paralela.

O episódio discute os motivos que levam famílias ao homeschooling, além dos impasses jurídicos que envolvem um tema que ainda divide opiniões. Assista abaixo:

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