A empresa afirma que seus produtos não representam risco e contesta a avaliação do órgão de fiscalização. Já a Anvisa alegou risco sanitário.

Desde que a ANVISA determinou a suspensão da fabricação e venda de produtos da Ypê, a questão se tornou uma polêmica nas redes sociais.
Michelle Bolsonaro e o vice-prefeito de São Paulo Ricardo Mello Araújo foram alguns dos nomes que fizeram publicações defendendo a marca.
Entenda o caso e a polêmica por trás das medidas tomadas pela Anvisa contra a Ypê.
A suspensão começou na quinta-feira passada (7), após fiscais visitarem uma fábrica da empresa em Amparo, no interior de São Paulo.
Segundo a agência, os técnicos encontraram “descumprimentos relevantes em etapas críticas do processo produtivo”.
Foram afetados “lava-louças (detergente), sabão líquido para roupas e desinfetante da marca Ypê, de todos os lotes com numeração final 1”, segundo nota da agência.
Entre os problemas apontados estão falhas nos sistemas de produção, garantia e controle de qualidade.
As imagens anexadas ao relatório da inspeção mostram equipamentos com sinais de corrosão usados na fabricação de detergentes e lava-roupas líquidos.

Os fiscais também relataram problemas no estado de conservação de tanques usados na manipulação dos produtos.

Em outro trecho do documento, a inspeção afirma que fiscais encontraram restos de produtos armazenados e devolvidos às linhas de envase.
A Anvisa afirmou ainda que, entre dezembro de 2025 e abril de 2026, a empresa registrou resultados fora da especificação microbiológica em 80 lotes de produtos acabados.
Segundo o relatório, alguns testes identificaram a presença da bactéria Pseudomonas aeruginosa.
De acordo com a agência, os lotes não teriam sido reprovados pelo controle de qualidade e permaneceram armazenados aguardando “definição financeira”.
Para os fiscais, o conjunto das irregularidades configura “um quadro crítico” de “risco sanitário elevado”.
A principal preocupação da agência é a possibilidade de contaminação nos produtos, isso significa a presença de bactérias, fungos ou outros microrganismos.
A decisão da Anvisa determinou o recolhimento de detergentes, lava-roupas líquidos e desinfetantes fabricados na unidade de Amparo. A medida vale apenas para lotes terminados com o número 1.
Em nota, a empresa negou que seus produtos ofereçam riscos aos consumidores e afirmou possuir “fundamentação científica robusta”, baseada em testes e laudos técnicos independentes, indicando que os produtos são seguros.
A fabricante também declarou que a inspeção não encontrou contaminação nos produtos e que mantém controles internos para identificar e descartar itens fora do padrão.
Segundo a empresa, as áreas mostradas nas imagens não possuem contato direto com os produtos e fazem parte de um “plano robusto de melhorias” alinhado com a Anvisa desde o ano passado.
A Ypê também informou que apresentou recurso administrativo contra a decisão da agência.
Esse recurso suspendeu automaticamente os efeitos da proibição até nova análise da diretoria colegiada da Anvisa.
Mesmo assim, a agência manteve a recomendação para que consumidores evitem utilizar os produtos dos lotes afetados.
"A Ypê esclarece que possui fundamentação científica robusta, baseada em testes e laudos técnicos independentes, atestando que seus produtos das categorias lava-louças, lava-louças concentrado, lava-roupas líquido, e desinfetante são seguros e não representam qualquer risco ao consumidor.
A empresa mantém diálogo contínuo e colaborativo com a Anvisa e, com a apresentação de informações e evidências técnicas adicionais, confia plenamente na reversão da decisão no menor prazo possível.
A Ypê reafirma seu compromisso com a qualidade, a segurança e a transparência e permanece à disposição da autoridade sanitária, da imprensa e dos consumidores para quaisquer esclarecimentos”.
A discussão ultrapassou o debate técnico sobre vigilância sanitária e ganhou dimensão política.
Nas redes sociais, aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro passaram a defender a empresa e questionar a atuação da Anvisa.
O vice-prefeito de São Paulo, Ricardo Mello Araújo, publicou vídeos usando produtos da marca e incentivando consumidores a comprarem itens da Ypê.
“Vamos acabar com essa sacanagem que estão fazendo com uma empresa 100% brasileira”, afirmou.
Ele também disse que trabalhou na empresa e classificou a situação como “uma grande injustiça”.
Michelle Bolsonaro também chegou a publicar fotos nas quais aparece lavando a louça com o detergente.
O senador Cleitinho Azevedo sugeriu que a medida poderia ter sido motivada por questões políticas.
Ele afirmou que apenas um lote estava contaminado e destacou que a empresa havia apoiado a campanha de Bolsonaro.
A família Beira, que controla a Ypê, realizou doações milionárias durante as eleições presidenciais de 2022.