Atualidades5 min de leitura

Terceiro Comando Puro: a facção que se diz evangélica e virou a segunda mais poderosa do Rio de Janeiro

Traficantes usam discurso religioso e chegaram a proibir outras religiões em seus territórios.

Por
Redação Brasil Paralelo
Publicado em
Símbolos do Terceiro Comando Puro
Fonte da imagem: Reprodução

Pelo menos 4 milhões de pessoas vivem hoje sob controle de facções criminosas e milícias na região metropolitana do Rio de Janeiro

O Mapa dos Grupos Armados, desenvolvido pela UFF, mostra que cerca de 35% da população da capital fluminense está em áreas onde o Estado cedeu espaço ao domínio armado.

Entre as organizações criminosas que disputam esse território, o Terceiro Comando Puro (TCP) chama atenção pelo crescimento acelerado

Fundado em 2002 como uma dissidência do Terceiro Comando, o grupo já é a terceira maior força criminosa do Rio, atrás apenas do Comando Vermelho e das milícias.

O levantamento da UFF mostra que aproximadamente 450 mil moradores vivem sob as regras do TCP, número que vem crescendo.

A facção da estrela de Davi: religião e guerra territorial

O TCP tem se destacado não só pelo crescimento territorial, mas também pelo uso de simbologias religiosas

Em favelas dominadas pelo grupo é comum encontrar grafites com cruzes, versículos bíblicos e a estrela de Davi iluminando as caixas d’água

Simbolo do TCP. Imagem: Reprodução TV Globo

Uma das principais regiões dominadas pela facção é o grupo de cinco comunidades que compõem o chamado “Complexo de Israel”. O termo foi batizado como referência à terra prometida, para o povo de Deus na Bíblia

Um ramo da organização assumiu o nome de Tropa de Arão, em referência ao irmão de Moisés, figura bíblica que liderou a fuga do povo judeu do Egito e sua busca pela terra prometida.

Arão é um dos apelidos do traficante Álvaro Malaquias de Santa Rosa, que também é conhecido como Peixão. 

As comunidades estão cercadas de barricadas e infestadas de homens armados que se autodenominam “soldados de Deus” para impedir a entrada da polícia e de grupos rivais 

De acordo com a polícia, o grupo chega a identificar as drogas que transporta com bandeiras de Israel.

Traficantes proíbem práticas religiosas no Complexo de Israel

Segundo o secretário de segurança, a Tropa de Arão também interfere diretamente na vida religiosa dos moradores do complexo.

Há relatos de terreiros de religiões de matriz africana fechados pelos traficantes com frases como “Jesus é o dono do lugar” pichadas nas paredes

Quando esses traficantes evangélicos ordenam o fechamento de terreiros, além do racismo e intolerância religiosa, estão demonstrando seu poder, força e domínio no território. Ou seja, esse grupo de traficantes utiliza a gramática evangélica como instrumento de dominação da população residente nas favelas”, explicou a pesquisadora Kristina Hinz para a BBC Brasil.

Os traficantes também determinaram que as igrejas católicas da região estão proibidas de celebrar missas, casamentos e batizados.

Motoqueiros armados teriam ido nas portas de paróquias para avisar aos religiosos que as atividades deveriam ser encerradas.

O avanço pela força

Ao contrário das milícias, que costumam ocupar regiões ainda não controladas por nenhum grupo, o TCP cresce por meio da disputa e substituição de rivais

Em 2024, 77,7% do crescimento populacional do grupo ocorreu em áreas já controladas por outras facções ou milícias.

O grupo também expandiu cerca de 68% de seu território através de embates com outras organizações.

Essa estratégia tem transformado o Rio de Janeiro em uma verdadeira zona de guerra, com grupos armados lutando entre si para tomar territórios.

A Brasil Paralelo investigou como a capital carioca se tornou uma cidade violenta dividida pelo crime organizado.

Clique aqui e garanta seu acesso a essa e todas as produções originais por apenas R$10.

O jornalismo da Brasil Paralelo existe graças aos nossos membros

Como um veículo independente, não aceitamos dinheiro público. O que financia nossa estrutura são as assinaturas de cada pessoa que acredita em nossa causa. 

Quanto mais pessoas tivermos conosco nesta missão, mais longe iremos. Por isso, agradecemos o apoio de todos. 

Seja também um membro da Brasil Paralelo e nos ajude a expandir nosso jornalismo. 

Clique aqui.