Brasil buscou parceria com a China após não conseguir acordo com os soviéticos.

A China se prepara para chegar à Lua antes de 2030. Na semana passada, o país fez um teste de voo em baixa atitude do foguete Longa Marcha-10.
A espaçonave Mengzhou estava integrada durante o experimento. Ela comporta os astronautas que deverão ser levados à Lua e é impulsionada pelo foguete.
Atualmente, a China compete com os EUA como uma das nações mais avançadas na exploração espacial, mas nem sempre foi assim.
O país contou com a ajuda do Brasil para desenvolver seu programa espacial na década de 1980.
Naquela época, o governo brasileiro buscava fortalecer sua tecnologia e queria desenvolver seu programa espacial.
Para isso, o então ministro da Ciência e Tecnologia, Renato Archer, procurou a cooperação de uma das principais potências espaciais do mundo.
Especialistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) chegaram a viajar para a União Soviética em 1987, no entanto a parceria não teve resultado.
Os russos não aceitavam trocar informações de maneira aberta e transparente com os brasileiros, o que fez com que o país desistisse da iniciativa.
Sem o apoio soviético, o INPE enviou seus cientistas para a China, que não tinha um programa tão desenvolvido, mas estava aberta a cooperar.
Na época, a nação comunista estava procurando melhorar seus satélites e contou isso para os brasileiros de maneira honesta.
O ex-diretor de Engenharia espacial do INPE, Celeste Ghizoni, contou à CNN que os chineses não tinham um programa tão bem estruturado.
Os engenheiros anotavam seu trabalho em cadernos individuais, sem uma burocracia oficial que centralizasse as informações:
"Nós chegamos lá e vimos que eles não tinham sistema de documentação. Não faziam. Cada cientista, cada engenheiro tinha um caderninho. E quando eles queriam alguma coisa específica, chamavam alguém, que abria o caderninho dele e explicava. Não havia nada formalizado. Nós auxiliamos no ajuste de todo o processo de formalização e documentação. Começamos a passar toda essa parte de configuração"
Além de ajudar a estruturar o sistema de documentação chinês, o Brasil teve um papel importante em conseguir equipamentos e materiais para os chineses.
Na época, a ditadura comunista sofria embargos internacionais e não conseguia fazer contratos para comprar produtos importantes para o desenvolvimento espacial.
Além das trocas técnicas, a parceria ganhou forma institucional em 1988, com a assinatura do acordo que criou o CBERS.
O programa conjunto buscava desenvolver satélites de sensoriamento remoto, utilizados para coletar imagens e informações na Terra.
O projeto previa divisão de responsabilidades, transferência de conhecimento e desenvolvimento conjunto de tecnologia.
Mais de dez anos depois, em 1999, o primeiro satélite da parceria foi lançado com sucesso em território chinês.
Ao mesmo tempo em que ajudava a estruturar processos na China, o Brasil também consolidava sua própria experiência em aplicações espaciais.
Em 1988, teve início o programa PRODES, voltado ao monitoramento anual do desmatamento da Amazônia.
Esse domínio sobre o uso prático de dados de satélite influenciou o desenvolvimento chinês na área de aplicações civis.
Conforme a economia chinesa se desenvolvia e o país avançava em outras áreas, como tecnologia militar e nuclear, o programa espacial também crescia.
Na mesma entrevista para a CNN, Ghizoni comentou que não acreditava na capacidade daquele país se tornar uma potência espacial, mas eles conseguiram atingir esse objetivo:
"No começo a gente não acreditava. Depois de um tempo, porque demorou um pouco, eles começaram, aí ninguém mais segurou. Eu voltei lá em 2016. Muito tempo depois. Pensei: 'esses caras têm tudo'', fiquei assustado".
O crescimento da China de fato foi uma grande surpresa para muitas pessoas que conheceram o país no século passado.
A nação deixou a fome e a miséria para se tornar uma das maiores potências do século XXI e disputar o poder internacional com os EUA.
Entenda como a China se transformou e qual o papel do Partido Comunista Chinês nisso com o épico História do Comunismo.
A série explica a história de uma das ideologias mais importantes do mundo desde seu surgimento até os dias atuais. Assista o primeiro episódio abaixo:
Clique aqui e garanta seu acesso à série completa, além de todas as produções originais da Brasil Paralelo por apenas R$10 por mês.
Como um veículo independente, não aceitamos dinheiro público. O que financia nossa estrutura são as assinaturas de cada pessoa que acredita em nossa causa.
Quanto mais pessoas tivermos conosco nesta missão, mais longe iremos. Por isso, agradecemos o apoio de todos.
Seja também um membro da Brasil Paralelo e nos ajude a expandir nosso jornalismo.