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Uma crônica sobre o Brasil

E se Edison tivesse nascido no Brasil? Uma crônica sobre gigantes que aprendem a não crescer demais. Sobre a ambição, ambiente e o eterno “depois” brasileiro.

Por
Lucas Ferrugem
Publicado em
Tatiane Sampaio (à esquerda), pesquisadora brasileira, e Thomas Edison (à direita), inventor da lâmpada elétrica.
Fonte da imagem: Tatiane Sampaio (à esquerda), pesquisadora brasileira, e Thomas Edison (à direita), inventor da lâmpada elétrica.
CRÔNICA

Acho que se Thomas Edison tivesse nascido no Brasil, não deveria inventar a lâmpada.
Deveria, sim, inventar um curso.

“Ilumine-se em 21 dias.”
Com bônus exclusivo de meditação elétrica.

Rockefeller? Funcionário público exemplar. Chegaria às oito, sairia às cinco.
Bateria o ponto com a mesma disciplina com que um dia teria refinado petróleo.

O império ficaria para depois.
O Brasil adora o depois.
O depois é nossa reserva estratégica.

Talvez Ford, metódico, passasse num concurso.
Juiz de carreira sólida, toga impecável, currículo irretocável.

E talvez, com a serenidade dos homens convencidos de sua missão, usasse o poder para corrigir os desvios de Edison, esse vendedor de energia interior.

Chamado a responder na corte.
Em nome da ordem.

Depende…

Gigantes nós tivemos.

Alguns brilhantes.

Padre Landell de Moura falava de ondas invisíveis quando o país ainda discutia cercas.
Foi tratado como excentricidade de batina. O jeca com antena.

Santos Dumont voou. Depois viu os Irmãos Wright pegarem a fama do avião e, por aqui, virou monumento.
Ganhou uma estátua.
Elegante forma de calar a boca.

Gurgel sonhou com carro elétrico antes de o mundo descobrir que isso dava clique. Poderia ter sido Musk? Não sei.
Sei que virou meme.
E meme é uma risada boa.
Descomprime a ambição.

Ah, e o Barão de Mauá?

Irineu Evangelista de Sousa não era apenas empresário.
Era um excesso.

Construiu estaleiro, banco, estrada de ferro, iluminação a gás.
Falava de aço, trem e crédito num país que preferia fazenda e silêncio.
Era quase um escândalo ambulante.

Se tivesse nascido em outro lugar, talvez fosse o gigante do aço, o Carnegie.
Aqui se viu em desavença com o imperador.

Não precisa da discussão se houve ou não a sabotagem explícita dos seus projetos.
Por aqui basta o desalinhamento.
Basta o clima.

Temos um darwinismo peculiar: sobrevive o mais adaptado ao braço curto.
O que entende as entrelinhas.
O que joga fino.
O que sabe até onde pode crescer sem parecer ameaça.

A Varig virou lição amarga: não precisa fechar a porta, basta apertar devagar.

Os militares mandaram congelar os preços, aguentar os prejuízos.
Em nome do país. Vai ser recompensada.  
Já Collor tinha outra ideia; comércio chique internacional, abram-se as fronteiras.

Mas e a Varig? Cheia dos prejuízos acumulados das ordens que cumpriu?
Ah, essa era ineficiente.
Nao aguentou a concorrência.

Por lá, Ford foi recompensado.
Serviu a missão patriótica do país com suas fábricas e teve seus produtos incomodando ciclistas ao redor do mundo.

Aqui, o morto nasce culpado.

E o mais trágico é que talento existe.
Existe em excesso.

Mas nossos gigantes aprendem cedo que não podem ser gigantes demais.
Muita altura. Deselegante.
Chama atenção.
E chama correndo.

Calma. O Brasil não pode ser agora.
O Brasil tem o depois, lembra?
É nossa vantagem estratégica.

Aqui a lâmpada não precisa acender.
Basta ser homologada.

Aliás, é melhor torcer para que não acenda demais.

Luz forte revela demais.
E o que se revela, por aqui, costuma incomodar.