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El Salvador julga 486 membros de gangues por 47 mil crimes

A Procuradoria afirma ter provas suficientes para conseguir penas máximas para os criminosos.

Por
Gabriel Costa
Publicado em
CECOT
Fonte da imagem: Produção Brasil Paralelo

Em março de 2022, membros da gangue MS-13 ordenaram o assassinato de 87 pessoas em um único fim de semana em El Salvador. Esse massacre foi o ponto de virada para as mudanças que tornaram El Salvador o país mais seguro do ocidente.

O presidente Nayib Bukele declarou guerra às gangues, o Parlamento aprovou um regime de exceção e mais de 91 mil pessoas foram presas nos quatro anos seguintes.

Agora, 486 dos acusados de integrar a Mara Salvatrucha sentam no banco dos réus em um único julgamento coletivo iniciado na última segunda-feira (20).

Entre eles estão fundadores, líderes e integrantes da cúpula da organização, conhecida internamente como "ranfla".

A acusação é de 47 mil crimes cometidos entre 2012 e 2022, incluindo 29 mil homicídios, feminicídios e desaparecimentos.

  • Entenda como foi a entrada de Bukele na política de El Salvador no canal da Brasil Paralelo.

Gangue controlava 80% do território do país

A MS-13 surgiu em Los Angeles na década de 1980 e evoluiu até se tornar uma organização transnacional.

Em El Salvador, chegou a controlar 80% do território nacional ao lado de sua rival, o Barrio 18. Os Estados Unidos classificaram ambas como organizações terroristas no ano passado.

No julgamento atual, os réus respondem também pelo crime de rebelião, por terem buscado estabelecer um "Estado paralelo" que atentava contra a soberania nacional.

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Procuradoria diz ter provas para pedir pena máxima

O processo é inédito em sua escala. Dos 486 réus, 413 participarão das audiências de forma virtual.

Outros 73 estão foragidos. Mesmo ausentes, serão julgados, e a sentença valerá caso sejam capturados.

Mais de 250 dos acusados estão detidos no Cecot, o Centro de Confinamento do Terrorismo, a megaprisão de segurança máxima construída pelo governo Bukele. O restante está em outros presídios de alta segurança.

A Procuradoria afirmou ter "provas abundantes para pedir as penas máximas", sem especificar se isso incluiria a prisão perpétua, que deve entrar em vigor em breve para homicidas e terroristas.

O julgamento não é consenso

Organizações de direitos humanos alertam que o regime de exceção de Bukele suspendeu garantias constitucionais e levou a detenções arbitrárias sem ordem judicial.

Membros da ONU advertiram que "não se pode atropelar o direito a um julgamento justo em nome da segurança pública".

Para a Human Rights Watch, o modelo adotado compromete a própria ideia de justiça.

"Esses julgamentos em massa tornam impossível estabelecer responsabilidades individuais com provas sólidas e garantias reais de defesa e, por isso, correm o risco de transformar a Justiça em uma encenação", afirmou Juanita Goebertus, diretora da Divisão das Américas da organização.

A Procuradoria disse esperar que o julgamento termine "em breve", sem indicar datas. O juiz Durán questionou a lógica das penas que poderiam ser impostas.

"De que adiantarão condenações de 300, 500, 800 ou 1.200 anos de prisão, se não poderão ser cumpridas?"

A Brasil Paralelo esteve no CECOT

A equipe da Brasil Paralelo esteve no CECOT. Lucas Ferrugem descreveu a experiência como um choque.

“Cara, eu não estava preparado… A gente passou o dia lá. O governo não tenta fazer propaganda. Eles mostram como é. Não é uma prisão para qualquer bandido, é pra faccionado.”

Ele detalha:

“As luzes não apagam. Não tem colchão. As pessoas ficam em câmaras de alumínio o dia inteiro, nas mesmas roupas. Misturam facções inimigas nas mesmas celas para mostrar que ninguém tem poder.”

Sobre o processo de chegada ao complexo, Ferrugem relata: “O indivíduo passa uns 15 dias de solitário para ser condicionado. Não come proteína. Não tem carne.”

Assista seu relato completo em nosso canal do Youtube.

https://www.youtube.com/watch?v=mWRQlWXrKfo

El Salvador: uma das produções mais impactante da BP

O resultado dessa visita é o documentário El Salvador, A investigação acompanha de perto experiência que divide o mundo.

De um lado, um país que passou mais de mil dias sem registrar um assassinato. Do outro, denúncias de presos inocentes e condições subumanas nas celas.

A Brasil Paralelo foi até lá para entender o que realmente acontece. As câmeras entraram nos presídios, entrevistaram ministros, opositores, jornalistas e os próprios criminosos.

O documentário estreia em maio.

Clique aqui e garanta seu acesso e assista a este e a todos os originais da Brasil Paralelo por R$10,90 ao mês. 

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