Retirada do termo pode não significar mudança de regime. Conheça a Juche, o socialismo coreano.

A Coreia do Norte retirou a palavra "socialista" de sua Constituição. A notícia está correndo o mundo e foi divulgada pelo governo do sul.
A nova versão traz mudanças significativas. O documento que desde 1972 se chamava "Constituição Socialista", passa a ser chamada simplesmente de "Constituição".
Todas as suas cláusulas sobre bem-estar social gratuito foram eliminadas: saúde gratuita, desemprego zero, abolição de impostos.
A expressão "o Estado proporciona condições de vida aos trabalhadores" foi substituída por "luta para prover".
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A nova Constituição também define, pela primeira vez, o território norte-coreano como aquele que faz fronteira com a China e a Rússia ao norte e com a Coreia do Sul ao sul.
É a formalização de uma ideia que Kim Jong-un vem defendendo há anos: as duas Coreias são Estados separados e inimigos. Todas as referências à reunificação foram removidas do documento.
Existem outras mudanças na nova Constituição que trataremos ao longo deste texto, mas um dos pontos que ganhou as manchetes foi a retirada do termo “socialista”. Alguns veículos chegaram a afirmar que a Coreia do Norte teria deixado de ser socialista.
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O país possui um socialismo “à moda da casa”, diferente do modelo ortodoxo. Essa ideologia é chamada de Juche.
O conceito foi sistematizado por Kim Jong-il, pai do atual líder, no livro Sobre a Ideia Juche.
Em coreano, a palavra une "Ju" (dono) e "che" (corpo) expressando a ideia de ser dono do próprio destino. A definição central é que "o homem é dono de tudo e decide tudo."
O modelo parte da evolução natural da economia e das classes sociais, o Juche coloca as massas populares como criadoras ativas da história, guiadas incondicionalmente pelo Partido e pelo Líder, sem submissão a nenhuma nação estrangeira.
O primeiro é ideológico: pensar de acordo com a realidade coreana, rejeitando a influência estrangeira.
O segundo é político: tomar todas as decisões de Estado de forma autônoma, sem ceder a pressões externas.
O terceiro é econômico: construir uma economia sustentada pelos próprios recursos, sem depender de ajuda de outros países.
O quarto é militar: ter forças armadas capazes de defender o país inteiramente com as próprias forças: o que explica, em parte, a obsessão norte-coreana com o desenvolvimento nuclear.
Apesar da ideia de que o sistema possa ter deixado de existir após a mudança, o resultado prático é um regime que não usa o rótulo ocidental de socialismo, mas mantém o controle total do Estado sobre a economia, a política e a vida dos cidadãos.
Retirar a palavra “socialista” da Constituição não significa, necessariamente, uma mudança na realidade do país.
A Coreia do Norte opera segundo uma doutrina própria, moldada para defender o regime contra influências externas e concentrar o poder nas mãos do líder.
Hoje, o país é governado pela mesma família há três gerações e já há sinais de uma possível sucessão, com a filha de Kim Jong-un ganhando cada vez mais espaço público.
Voltando às demais mudanças na Constituição
A nova Constituição substituiu a descrição do cargo de Kim Jong-un de "líder supremo do país que representa o Estado" para "presidente da Comissão de Assuntos de Estado", formalizando o título de chefe de Estado.
Além disso, pela primeira vez definiu que o comando sobre as forças nucleares do país cabe diretamente a este presidente.
O documento descreve a Coreia do Norte como um "Estado com armas nucleares responsável" e afirma que o país continuará avançando no desenvolvimento de seu arsenal para "dissuadir guerras e proteger a paz regional e global".
Também foi removida as referências às realizações dos líderes anteriores, Kim Il-sung e Kim Jong-il, concentrando ainda mais a narrativa histórica e política em torno de Kim Jong-un.
Do lado de baixo da fronteira, o presidente Lee Jae-myung tem tentado manter diálogo, afirmando que os dois países estão destinados a "fazer desabrochar as flores da paz".
Pyongyang segue sem responder. Em abril, a Coreia do Norte realizou quatro testes de mísseis, o maior número em um único mês em mais de dois anos.
A economia norte-coreana, de acordo com o Ministério da Unificação do Sul, dá sinais de recuperação, impulsionada pelo aprofundamento dos laços com a Rússia e a China.
Em 2024, Pyongyang e Moscou assinaram um tratado de defesa mútua. No mesmo ano, a Coreia do Norte enviou milhares de soldados para apoiar a Rússia na guerra contra a Ucrânia.
A palavra "socialista" saiu da Constituição. Mas isso pode não ter muito impacto no atual regime.
A Coreia do Norte é uma das poucas nações que ainda vivem sob uma ditadura inspirada no pensamento de Karl Marx.
Entenda melhor o que foi o comunismo e seu impacto para o mundo com o épico História do Comunismo.
Assista ao primeiro episódio abaixo:
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