Coleção Nova História Crítica chegou a 50 mil escolas públicas, elogiava Cuba e glorificava Mao Tsé-tung como grande estadista.

Durante anos, um livro de história descreveu Mao Tsé-tung como um "grande estadista e comandante militar". Elogiou o regime cubano. Afirmou que a propriedade privada "aumenta o egoísmo e o isolamento entre as pessoas".
Tudo isso distribuído gratuitamente pelo governo brasileiro para 50 mil escolas públicas.
A coleção Nova História Crítica, do professor Mario Schmidt, foi o livro didático mais adotado no Brasil durante anos.
De acordo com uma matéria do Estadão de 2007, mais de 20 milhões de estudantes tiveram contato com a obra em 10 anos.
Ao ser comprada pelo Ministério da Educação, a coleção representava 30% do total de livros de história escolhidos, a maior fatia entre todos os títulos disponíveis.
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Em 2007, o jornalista Ali Kamel, diretor de jornalismo da Rede Globo, publicou no jornal O Globo um artigo chamado "O que ensinam às nossas crianças".
No texto, transcreveu trechos da coleção e afirmou:
"Nossas crianças estão sendo enganadas, a cabeça delas vem sendo trabalhada, e o efeito disso será sentido em poucos anos. É isso o que deseja o MEC? Se não for, algo precisa ser feito, pelo ministério, pelo congresso, por alguém."
Pouco tempo depois, o MEC confirmou que o livro havia sido reprovado na última avaliação do Programa Nacional do Livro Didático por "erro conceitual", "incoerência metodológica" e "doutrinação ideológica".
A coleção foi retirada do programa em 2008.
Entre os trechos que geraram polêmica estava uma comparação direta entre capitalismo e socialismo, com ilustrações que apresentavam o sistema capitalista como explorador e o socialista como democrático e voltado ao bem-estar coletivo.
O livro também afirmava que o MST "tornou-se um importante instrumento na luta pela justiça social no Brasil" e criticava o acúmulo de capital da burguesia.
Ao tratar da queda da União Soviética, Schmidt atribuiu o colapso à inveja da inteligência soviética em relação à classe média ocidental, e não às falhas estruturais do sistema.
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Críticos da reprovação apontaram que o livro havia sido aprovado pelo MEC duas vezes antes de ser vetado, tanto no governo Fernando Henrique Cardoso quanto no primeiro governo Lula.
Quem escolhia a obra não era o ministério, mas os próprios professores, a partir de um guia com avaliações de especialistas de universidades federais.
O editor Arnaldo Saraiva afirmou que mais de 50 mil professores analisaram dezenas de coleções e escolheram livremente a Nova História Crítica.
Além disso, Saraiva afirmou que Mario Schmidt foi "o autor mais amado e idolatrado" e também "o mais odiado, perseguido e injustiçado pela extrema-direita, capitaneada pela Rede Globo e seus jornalistas liderados pelo Ali Kamel".
O professor Alexandre Godoy, da PUC-SP, pontuou que as mesmas falhas apontadas no livro de Schmidt, como erro conceitual e doutrinação ideológica, aparecem na maioria dos livros recomendados pelo MEC.
"Não existe um livro ideal, livre de ideologia", disse.
O caso Nova História Crítica mostra como muitas vezes conteúdos ideológicos chegam às salas de aula.
Em Pedagogia do Abandono, o novo documentário da Brasil Paralelo, reunimos especialistas para entender como correntes pedagógicas e ideológicas chegaram às escolas brasileiras.
Também investigamos qual é o impacto disso no desenvolvimento das crianças.
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