Entre o vício e o abrigo improvisado sob as obras do metrô, o flautista continua a ensinar e sonha com um novo disco.

Nas obras do metrô, em São Paulo, entre barracas improvisadas e vigas de concreto, vive um flautista premiado na Europa.
Charles Gonçalves, 52 anos, ganhou medalha na Holanda em um projeto da Unesco e venceu o Prêmio Sharp em 1988.
Além disso, se apresentou no Fantástico, no Domingão do Faustão e no Altas Horas, tocou com Beth Carvalho e Dominguinhos e gravou dois discos. Hoje dorme na rua.
A história foi reportada pelo Metrópoles, que encontrou Charles por acaso depois que usuários de crack da região disseram aos repórteres que havia um flautista premiado vivendo por ali.
Charles atribui o retorno às ruas a uma separação conjugal há dois anos. Não foi a única recaída em mais de 30 anos de dependência de álcool e outras drogas, mas diz ser a mais longa. No entanto, ele nunca se afastou de sua flauta.
Quando a reportagem chegou, ele havia acabado de dar uma aula para um aluno engenheiro agrônomo. Outro aluno é psiquiatra.
Ele tem canal no YouTube, dois discos gravados e participação em outros 20 ou 30. Um de seus objetivos é gravar um terceiro volume de Clássicos em Choro.
Seu irmão gêmeo Reinaldo é violonista e também vive na rua. Um terceiro irmão integra os Demônios da Garoa.
Questionado sobre por que não aceita ajuda de órgãos públicos, ele responde que não quer ser colocado e esquecido em uma clínica.
Sobre o vício, Charles não fala em abstinência total. Diz que vai reduzindo aos poucos, no seu tempo. E, apesar de tudo, ele afirma ainda que encontra motivo para agradecer.
"Eu acredito que o meu pulmão é emprestado de Deus. Sou um cara agradecido por estar vivo diante de tanto preconceito, discriminação, julgamento”, disse ao Metrópoles
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