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Santidade: o que torna alguém digno de ser imitado?

Entenda como a ideia surgiu e passou a dialogar com a vida real de pessoas comuns.

Por
Gabriel Costa
Publicado em
São Pedro
Fonte da imagem: Site: Canção nova.

Desde a Antiguidade, os homens procuram exemplos para orientar a própria vida. Na Grécia, filósofos debatiam sobre o que tornava uma pessoa excelente.

Em resposta, chegaram ao conceito de homem virtuoso que é aquele que, por meio da razão e das boas práticas, busca viver bem e controlar a si mesmo.

Roma herdou esse pensamento e o adaptou à vida pública. A virtude deixou de ser apenas um conceito filosófico e passou a ser associada ao serviço à sociedade.

Surgiu a figura do vir bonus, o homem bom, que é aquele que é justo e íntegro, tomado como referência para avaliar comportamentos e decisões na comunidade romana.

Esses modelos, no entanto, estavam ligados a contextos específicos. Filósofos e líderes políticos eram vistos como exemplos morais.

A vida comum quase não era tratada como espaço para a virtude e a maioria apenas observava esses ideais de longe.

Com o cristianismo, esse modelo mudou. O exemplo moral deixou de ser o sábio ou o bom cidadão e passou a ser o santo.

A virtude passou a ser apresentada como um caminho aberto a qualquer pessoa.

Nesse sentido, para o cristianismo, santo é aquele que busca se parecer com Jesus Cristo, considerado por seus seguidores o Santo por excelência e o modelo máximo de vida virtuosa.

Essa ideia já aparece nos primeiros escritos cristãos. Em uma de suas cartas, o apóstolo Pedro resume esse chamado ao afirmar:

“Assim como é santo aquele que os chamou, sejam santos vocês também em tudo o que fizerem” (1 Pedro 1,15–16).
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Todos podem ser santos?

Décadas atrás, um documento da Igreja Católica afirmou que a santidade não é privilégio de poucos, mas um caminho aberto a todos.

“Na Igreja, nem todos sigam pelo mesmo caminho, todos são, contudo, chamados à santidade”., diz o documento Lumen Gentium.

Essa ideia aparece na diversidade de pessoas reconhecidas como santas ao longo da história.

Religiosos, filósofos, trabalhadores, casados, mártires, pessoas que enfrentaram regimes autoritários e até adolescentes ligados à tecnologia, como Carlo Acutis, canonizado em setembro de 2025, aparecem entre os reconhecidos pela Igreja.

O que une essas trajetórias é como viveram suas vidas.

Para o cristianismo, santo é quem busca viver como Cristo. Essa imitação é entendida como um processo vivido no dia a dia.

Em suas cartas, o apóstolo Paulo afirma que essa é a vontade de Deus.

“Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação” (1 Tessalonicenses 4,3).

Para o papa João Paulo II, o santo não é alguém que não peca, mas aquele que não desiste. A santidade aparece como perseverança na prática das virtudes.

Para os cristãos, os santos funcionam como referências morais que mostram como valores podem ser vividos na prática.

A vida de um santo é um modelo de como viver o bem em circunstâncias reais.

Para apresentar esses modelos, a Igreja organizou ao longo dos séculos o reconhecimento da santidade. 

Qual o processo para declarar alguém santo?

A Igreja não “cria santos”, mas reconhece publicamente que determinada pessoa viveu de forma exemplar e pode ser proposta como modelo.

Esse reconhecimento ocorre após a morte do candidato, por meio de um processo formal conhecido como canonização.

Para afirmar que alguém é santo há um longo processo que envolve análises técnicas.

Entre as figuras mais conhecidas desse processo está o chamado “advogado do diabo”, nome popular do Promotor da Fé.

Sua função é questionar a causa, levantar dúvidas e tentar demonstrar que a pessoa não reúne os critérios exigidos. O papel existe justamente para evitar conclusões apressadas.

Em algumas etapas, médicos, cientistas e outros especialistas, inclusive de outras religiões ou ateus, participam da análise dos supostos milagres. O objetivo é verificar se existe alguma explicação natural para os acontecimentos.

As etapas do processo

O processo de canonização segue etapas progressivas.

A primeira é o título de Servo de Deus, concedido quando o bispo local inicia oficialmente a investigação. Nesse momento, são reunidos documentos e testemunhos sobre a vida da pessoa.

Se for reconhecida a prática das virtudes cristãs em grau elevado, o papa pode declarar o candidato Venerável. Essa etapa não permite culto público, mas autoriza orações privadas.

A beatificação vem em seguida. Para mártires, basta o reconhecimento do martírio. Para os demais, exige-se um milagre comprovado, geralmente uma cura sem explicação médica.

Com isso, a pessoa passa a ser chamada de Beato, podendo ser venerada em contextos locais.

A canonização é a etapa final. Normalmente requer um segundo milagre ocorrido após a beatificação. Em casos excepcionais, o papa pode dispensar essa exigência.

A partir daí, o reconhecimento se estende por todo o mundo.

Há também a canonização equipolente, quando o papa reconhece um culto antigo e já consolidado, sem passar por todas as etapas formais.

Por que precisamos de santos?

Ao longo da história, os homens sempre voltam o olhar para exemplos concretos Para pessoas que passaram por conflitos e dificuldades em suas vidas e conseguiram manter um sentido.

Os santos aparecem nesse contexto. Suas histórias falam de como tomaram suas decisões e orientaram suas vidas mesmo em cenários comuns ou adversos.

Elas mostram como valores podem ser vividos quando tudo ao redor aponta para o contrário.

Ao reconhecer essas trajetórias, a Igreja mantém vivos exemplos que atravessam gerações. Referências humanas que podem responder a um questionamento antigo: como viver bem?

É a partir desse olhar que a Brasil Paralelo lança sua nova série Vida dos Santos. A produção mostra como diferentes homens e mulheres, em épocas e contextos distintos, enfrentaram seus desafios buscando viver com coerência.

Histórias marcadas por descobertas, guerras, perseguições e propósito.

No dia 26 de janeiro, às 20h, estreia gratuitamente o primeiro episódio da série.

Um convite para conhecer essas trajetórias de perto e entender por que, mesmo séculos depois, continuam sendo lembrados.

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