Cientistas divergem sobre o potencial real da descoberta e alertam que o caminho até um tratamento aprovado ainda é longo.

Quase 55 milhões de brasileiros vivem com ansiedade. É o que indicam dados de 2023, quando 26,8% da população havia recebido diagnóstico médico do transtorno.
Entre os jovens de 18 a 24 anos, o índice é ainda maior: um em cada três sofre com a condição.
Em 2019, a Organização Mundial da Saúde elencou o Brasil como o país com mais casos de ansiedade no mundo.
Para a maioria dessas pessoas, o tratamento envolve psicoterapia, medicamentos e mudanças de hábito.
É nesse contexto que uma descoberta feita por pesquisadores japoneses chamou a atenção da comunidade científica.
Um composto experimental chamado PA-915 foi capaz de reduzir comportamentos ansiosos e depressivos em roedores com uma única dose. O efeito durou até oito semanas.
Os resultados foram obtidos por equipes da Universidade de Osaka, da Faculdade de Medicina da Universidade de Kobe e de outros institutos japoneses.
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A PA-915 age bloqueando o mecanismo que “dispara" a ansiedade no cérebro. Quando uma pessoa enfrenta estresse crônico, o corpo libera cortisol e adrenalina em excesso.
É esse processo que o composto interrompe. Além disso, a substância estimula a formação de novas conexões entre neurônios, criando o que o psiquiatra Marco Abud chama de uma memória anti-ansiedade.
"A molécula prepararia o terreno biológico para que o cérebro consiga aprender que aquela situação de medo não é mais perigosa", explicou.
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Nem todos compartilham do mesmo entusiasmo. O professor Wagner Gattaz, titular de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, questiona até o uso do termo "vacina". Já que vacinas combatem vírus e bactérias.
A ansiedade não funciona assim. "Anunciar essa vacina para pessoas que sofrem com um transtorno cruel parece uma estratégia para atingir quem está mais suscetível ao charlatanismo", afirmou.
Ele também lembra que muitas substâncias promissoras em animais se mostraram tóxicas ou ineficazes em humanos.
Abud discorda. "O ceticismo é saudável na ciência, mas o termo charlatanismo aqui é um equívoco. O mecanismo da PA-915 é baseado em neurobiologia sólida e documentada."
A PA-915 ainda não foi testada em humanos. O caminho até um tratamento aprovado é longo. Mesmo que funcione, não será uma solução isolada.
"Não existe pílula mágica que faça alguém melhorar sem nenhum tipo de esforço", disse Abud. A ideia é que o composto potencialize a psicoterapia, e não a substitua.
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