Estudantes estão sem aulas desde o dia 23 de abril e salas estão fechadas por piquetes.

Um vídeo que mostra membros do movimento estudantil invadindo o prédio da reitoria da USP viralizou nas redes sociais.
As imagens mostram uma multidão se juntando em frente a uma porta de vidro e a derrubando no chão para entrar no prédio.
Após a queda do portão, os manifestantes invadiram o saguão da reitoria. Policiais militares acompanharam a cena de longe, mas não houve confronto.
No dia seguinte, pessoas ligadas ao movimento estudantil e seus simpatizantes continuam na reitoria e afirmam que só deixarão o prédio quando as negociações voltarem.
Eles também instalaram uma série de barracas em frente ao prédio. Agentes da PM seguem no local, sem confrontar os manifestantes.
Uma conta ligada ao Centro Acadêmico de Estudos Linguísticos (CAEL) chegou a pedir doação de alimentos e até travesseiros para os envolvidos.
Como forma de tentar fazer com que os estudantes deixassem o prédio, a USP cortou o fornecimento de água e energia.
Segundo o Diretório Central dos Estudantes (DCE), grupo que convocou o ato, essas ações fazem parte de um protesto pacífico:
"Rechaçamos qualquer tentativa de criminalização do movimento. O que é um ato de violência é não lutar por nossos direitos".
A USP está em greve desde o dia 23 de abril, com salas interditadas por piquetes de manifestantes.
A ação também recebeu apoio do movimento estudantil na Universidade Estadual de Campinas e da Universidade Estadual Paulista. As principais reivindicações dos manifestantes são:
aumento do auxílio estudantil do Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil (PAPFE);
ampliação das bolsas de permanência;
melhorias nas moradias estudantis;
reformas estruturais nos campi;
melhoria na qualidade da alimentação dos restaurantes universitários;
igualdade salarial entre professores e outros servidores da universidade.
Atualmente, os benefícios do PAPFE variam entre R$330 para estudantes com moradia e R$885 para auxílio integral.
A reitoria propôs um reajuste baseado no índice IPC-FIPE. Com isso, o auxílio integral subiria para R$912 e o parcial para R$340.
Os estudantes, porém, pedem que o valor seja equivalente ao salário mínimo paulista, atualmente em R$1.804.
Também existem reclamações sobre os restaurantes universitários e a situação do CRUSP, prédio que abriga universitários.
Em 2026, a universidade está operando com aproximadamente R$9,4 bilhões em recursos. O valor representa um aumento de 2,87% em comparação ao ano anterior.
Boa parte dos recursos foram captados através do ICMS, um imposto estadual arrecadado sobre serviços e produtos.
Segundo a Lei de Diretrizes Orçamentárias, a universidade recebe 5,03% do valor total arrecadado no imposto.
No entanto, a maior parte do dinheiro é gasto com a folha de pagamento dos funcionários, o que acaba com 84,2%.
Uma aluna da universidade que falou com a Brasil Paralelo de maneira anônima e comentou sobre a situação da USP.
Ela conta que faltam cadeiras para os alunos se sentarem e as salas estão tão cheias que muitos precisam acompanhar as aulas do lado de fora.
“O que tem acontecido é que não temos nem onde sentar na sala de aula. Estamos sem carteiras, já tiveram várias aulas que precisei assistir sentada no chão. Não tem sala para todo mundo, mais alunos do que espaço. Precisamos ficar do lado de fora e ouvir do corredor”.
A superlotação acontece pela falta de professor, afirmou a estudante, já que muitos são idosos e acabam morrendo ou se aposentando sem substituição.
Algumas turmas correm risco de deixar de existir pela falta de professores, o que faz com que muitos adiem a aposentadoria ou trabalhem mesmo com problemas de saúde.
Sobre o restaurante universitário, a aluna afirma que os estudantes recebem muitas vezes alimentos em péssimas condições:
“No bandejão está vindo comida velha com larvas e pedras. As pessoas vão comer e encontram bichos e larvas dentro da comida”.
O estado do conjunto onde os estudantes moram, o CRUSP, também é descrito como crítico pela estudante:
“As pessoas do CRUSP estão em uma condição insalubre. O prédio não tem manutenção, então os colchões estão com mofo, as paredes estão com mofo, o que é prejudicial para a saúde. Tem épocas em que o prédio fica sem água ou sem luz.”
Apesar do cenário de greve e vandalismo dentro da universidade, a aluna afirma que a maioria dos estudantes da USP são dedicados e apaixonados por seus estudos:
“Tem uma minoria que é do movimento estudantil, que se envolve com política, mas a maioria dos alunos são pessoas que trabalham, muitas vezes em mais de um emprego, tem paixão por estudar e querem fazer isso com dedicação e afinco”.
Muitas vezes esses alunos ficam em silêncio por conta de um fenômeno conhecido como espiral do silêncio.
De acordo com a pesquisadora especializada em opinião pública, Noelle-Neumann, as pessoas tendem a descobrir qual a visão dominante em um determinado ambiente e a reproduzem para evitar confrontos.
O pensamento hegemônico em um determinado lugar não é necessariamente aquele compartilhado pela maioria das pessoas, mas o com maior repercussão.
Em muitos casos, a maioria das pessoas podem até pensar de forma diferente, mas escondem suas visões, pois acreditam que são minoria.
A espiral do silêncio dentro das universidades é um dos temas do documentário original Unitopia.
A Brasil paralelo levou suas câmeras para as instituições de ensino mais famosas do Brasil para ver a real situação do ensino.
Assista gratuitamente ao primeiro episódio no vídeo abaixo:
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