Da Grécia a Santo Isidoro de Sevilha e a São Bonifácio.

Artigo de opinião
A leitura é um diálogo – e este é o paradoxo do livro – com alguém que não está diante de nós (...) que está presente só como escrita. Existe uma interrogação dos livros (chama-se hermenêutica), e se existe hermenêutica, existe culto do livro. As três religiões monoteístas – judaísmo, cristianismo e islamismo – desenvolvem-se sob a forma de interrogação contínua de um livro sagrado (...) um homem que lê vale por dois: na verdade, vale por mil.
“Vá rapaz, toma o texto e lê”. (Teeteto, 143c).
A ordem ao escravo dada por Euclides no Teeteto (séc. IV a.C.) de Platão (428-348 a.C.) pode muito bem ser ampliada para todo o âmbito do conhecimento: pegue o livro, pegue um livro. Leia-o! Assim inicia este famoso diálogo platônico sobre o saber e a sabedoria. E é assim que também principia o mundo interior.
No Ocidente, a escrita alfabética surgiu na Grécia por volta do séc. VIII a.C. Seus primeiros leitores praticavam a leitura em voz alta: só no séc. V a.C., alguns gregos passaram a ler em silêncio – justamente quando começou a ser disseminado um comércio de livros e, com ele, a leitura privada.
Lia-se em papiros na Grécia (pelo menos até o séc. VI a.C.) (imagem 2), mas também em tabuinhas de argila. Em relação ao acesso aos textos além das iniciativas privadas, é provável que Pisístrato (c.600-527 a.C.) tenha fundado em Atenas a primeira biblioteca pública.
Com isso, a prática se disseminou. A tal ponto que, após a morte de Alexandre, o Grande (356-323 a.C.) e o início do período helenístico (323-31 a.C.), especula-se que todos os núcleos urbanos por ele fundados contavam com uma biblioteca real, um prestígio de suas cidades, pois era um atrativo para estudiosos e auxiliares para a administração pública.
Alexandre, o Grande, fundou a cidade de Alexandria em 331 a.C., na extremidade ocidental do Delta do Nilo. Provavelmente por volta de 295 a.C. Demétrio de Falero (c.350-280 a.C.) sugeriu a Ptolomeu I (367-282 a.C.) a criação da Biblioteca de Alexandria, na forma de um anexo do Moseion (Μουσεῖον τῆς Ἀλεξανδρείας) – instituição dedicada às Musas e local de estudo e aprendizado.
Por volta de 30-25 a.C., o geógrafo grego Estrabão (c.63 a.C.-24) visitou Alexandria com Élio Galo, governador do Egito (26-24 a.C.), e fez uma breve descrição da Biblioteca:
“O Museu faz parte dos palácios. Tem um passeio público, um lugar mobiliado com assentos e um grande salão, no qual os homens de instrução, que pertencem ao Museu, fazem sua refeição. Esta comunidade também tem bens em comum, e um clérigo, anteriormente nomeado pelos reis mas atualmente por César, preside o Museu”.
As obras do Moseion foram concluídas sob o reinado de Ptolomeu II (309-246 a.C.). Sob Ptolomeu III (246-221 a.C.) a coleção da Biblioteca cresceu rapidamente graças a um decreto faraônico que determinava que todos os navios que chegassem a Alexandria deveriam entregar as obras sob suas posses para que fossem feitas cópias para a Biblioteca.
Somado a isso, Ptolomeu II adquiriu os papiros do Liceu de Aristóteles provavelmente das mãos de Neleu de Escépis, discípulo do Estagirita que viveu por volta de 300 a.C. (ou de um de seus descendentes), fato que ajudou a formar o núcleo da maior biblioteca do mundo antigo – cerca de quinhentos mil volumes, segundo tradição relatada pelo historiador Flávio Josefo (c.37-100).
Assim, Alexandria se transformou na capital intelectual do mundo mediterrâneo e matriz do trabalho intelectual de todas as civilizações ocidentais.
No mundo romano, até Catão, o Censor (234-149 a.C.), a escrita estava circunscrita aos sacerdotes e nobres, responsáveis pelos conhecimentos citadinos sobre o sagrado e o jurídico. Com a chegada a Roma de bibliotecas gregas, obras helênicas passaram a servir como modelos para os livros latinos. Isso a ponto de, com seu bisneto, Catão, o Jovem (95-46 a.C.), a leitura privada já se tornara uma prática comum (e, com ela, as bibliotecas privadas, consideradas espaços de ócio).
A leitura nasceu em Roma como uma atividade de prazer (voluptas), como nos diz Cícero (106-43 a.C.):
“...tais estudos atraem pelo seu valor intrínseco, porque a mente se interessa por eles apesar de nenhuma utilidade prática oferecerem (...) Sei bem que a história tem uma certa utilidade, para além do prazer. Que motivo, porém, nos leva a ler com prazer obras de ficção de que nenhuma utilidade é possível extrair? (...)
Os antigos filósofos descrevem como seria a vida dos sábios nas Ilhas dos Bem Afortunados: libertos de todas as preocupações, sem necessitarem dos cuidados e apetrechos da vida quotidiana, a única coisa em que acham dever empregar o tempo é no estudo e na investigação dos fenómenos da natureza. Por nosso lado, entendemos que nestes estudos reside, não só aquilo que nos proporciona a felicidade nesta vida, mas também o alívio para os nossos sofrimentos (...)”.
A primeira biblioteca pública romana foi fundada pelo cônsul Caio Asínio Polião (76-4 a.C.), ao lado do Templo da Liberdade. A segunda foi iniciativa de Augusto (63 a.C.-14), e ficava localizada no Pórtico do Templo de Apolo Palatino (infelizmente foi destruída por um incêndio). Sua irmã Otávia, a Jovem (66-11 a.C.), fundou duas bibliotecas no Pórtico de Otávia em honra à memória de seu filho Marco Cláudio Marcelo (41-23 a.C.) (todas com duas partes: uma para textos em grego, outra para obras latinas):
Sua linhagem manteve seu esplendor até Marcelo, sobrinho de César Augusto, filho da irmã de César, Otávia, com Caio Marcelo, que morreu durante seu cargo de edil em Roma, tendo recentemente se casado com uma filha de César. Em sua homenagem e em sua memória, Otávia, sua mãe, dedicou a biblioteca, e a César o teatro, que leva seu nome.2
A partir de então, Roma tomou para si a missão de estender as letras ao mundo, à medida que o conquistava. Trajano (53-117) tornou a Biblioteca Úlpia uma das mais importantes da Antiguidade.
Reconstituição (maquete) da Biblioteca Úlpia (112-114), localizada no Fórum de Trajano, em Roma.
Definitivamente, Roma adquiriu o gosto pela leitura. Além das públicas, havia bibliotecas privadas. Um magnífico exemplo de uma biblioteca privada romana – aliás, a única que sobreviveu, graças à tragédia da erupção do Vesúvio (em 79) – foi a da Vila dos Papiros (Villa dei Pisoni), em Herculano. Mais de mil e oitocentos papiros!
A Vila, luxuosíssima, também abrigava a maior coleção de esculturas de bronze descoberta em um único contexto – pelo menos oitenta, de magnífica qualidade. Provavelmente pertenceu a Lúcio Calpúrnio Pisão Cesonino (c.105-43 a.C.), sogro de Júlio César (101-44 a.C.). Sua biblioteca era, definitivamente, filosófica, para seu uso particular: como as bibliotecas públicas, havia uma seção grega (de tratados epicuristas) e outra latina (de escritos contemporâneos).
Para que tenhamos uma ideia de quão revolucionária foi a posterior difusão do códice (codex) na Idade Média, é preciso considerar o suporte textual anterior, o papiro.Este, frágil, não era flexível a ponto de poder ser dobrado. Seu armazenamento ocupava muito espaço (em escaninhos) e, para conter uma obra volumosa – como um tratado filosófico, por exemplo –, eram necessários muitos rolos. Por isso, o papiro era um suporte mais adequado a documentos oficiais, de chancelaria.
Por todos aqueles motivos, os romanos desenvolveram o códice (codex), formato mais prático tanto para a escrita quanto para a leitura. Sua difusão se deu pari passu com a difusão do Cristianismo no Império, a ponto de, no início do século IV, ambos os suportes se equiparavam no uso dos escritores e copistas.
O formato compacto do códice e sua praticidade logo ganharam o pragmático espírito romano, como se vê em um poema de Marcial (38-104) no início do século I:
“qui tecum cupis esse meos ubicumque libellos
et comites longae quaeris habere uiae,
hos eme, quos artat breuibus membrana tabellis:
scrinia da magnis, me manus una capit.
ne tamen ignores ubi sim uenalis et erres
urbe uagus tota, me duce certus eris:
libertum docti Lucensis quaere Secundum
limina post Pacis Palladiumque forum.”***
“Tu que desejas ter contigo, em toda parte, meus livrinhos,
que procuras companheiros para uma longa viagem.
compra estes, que o pergaminho condensa em pequenas tabuinhas.
Guarda na estante os grandes; quanto a mim, apanha-me uma única mão.
Para que não ignores, pois, onde estou à venda e ande incerto,
por toda a cidade, estarás seguro com minha orientação:
procura o Secundo, liberto do douto Lucense,
na porta do templo da Paz, atrás do foro de Palas”.
Et ecce audio vocem de vicina domo cum cantu dicentis et crebro repetentis, quasi pueri an puellæ, nescio: “Tolle, lege; tolle, lege.”
***
“Eis que, de súbito, oiço uma voz vinda da casa próxima. Não sei se era de menino, se de menina. Cantava e repetia frequentes vezes: – “Toma e lê; toma e lê”.
Nos primeiros séculos do Cristianismo, o amor aos livros (códices) e aos estudos a muito custo foi mantido pela Igreja Católica, única instituição a sobreviver à queda do Império Romano do Ocidente, em 476. Isso porque as bibliotecas romanas estavam localizadas nas capitais e principais cidades, as primeiras a serem pilhadas pelos invasores bárbaros, povos germânicos analfabetos que contribuíram para uma sensível baixa do nível global de cultura.
O modelo arquivístico seguido foi o da biblioteca pontifícia fundada pelo papa Dâmaso I (305-384) – posteriormente transferida para o Palácio de Latrão (anteriormente Domus Laterani) – e o da biblioteca do papa Agapito I (c.490-536), no Célio, ambas antecessoras da atual Biblioteca Apostólica Vaticana.
O esmero e a preocupação da Igreja em preservar os livros para seus futuros leitores estão muito bem expressos em uma passagem da Vida de Santo Agostinho, escrita por Possídio de Calama (†c.437), a respeito da morte do bispo africano, em 430:
“Testamentum nullum fecit, quia unde faceret pauper Dei non habuit. Ecclesiae Bibliothecam omnesque códices diligenter posteris custodiendos sempre iubebat (...)”.
***
“Não fez qualquer testamento porque, como pobre de Deus, nada tinha para deixar. Sempre determinou que a Biblioteca da Igreja e todos os seus códices fossem cuidadosamente guardados para a posteridade (...)”.
Juntamente com o amor aos livros por parte dos cristãos, nesses primeiros séculos do Cristianismo a participação das mulheres na cultura letrada foi fundamental. As cartas de São Jerônimo (c.342-420) a Paula (347-404) e a Marcela (325-410) atestam a importância da leitura e compreensão das Escrituras para uma sólida conversão. Aliás, a biblioteca de Marcela era provavelmente bem provida de obras gregas – nas classes elevadas, mulheres instruídas eram um fenômeno muito comum.
Já Melânia, a Jovem (c.383-439) era, de fato, uma amante dos livros: adquiria-os com frequência, tomava-os por empréstimo ou mesmo os copiava, diariamente (e com uma elegante caligrafia!).
Essas mulheres, aristocráticas, romanas, letradas, cultas, recentemente convertidas, eram um desdobramento real, cristão, da tradição clássica das doctae puellae41 (imagem 8).
Foi um gradativo processo cultural de interiorização: de uma descompromissada leitura literária ligada ao lazer, pagã, para uma comprometida leitura concentrada e atenta, cristã. Dos papiros e tabuinhas, pagãos, para o códice, cristão.
Na Idade Média, os livros foram provavelmente mais decisivos na elaboração de teorias do que na Antiguidade e na Idade Moderna. Certamente, o Sócrates platônico explicava seu itinerário filosófico seguindo o fio de leituras de filósofos pré-socráticos, mas em seu conjunto a filosofia antiga surgiu do contexto imediato dos problemas políticos do momento (...) Em comparação, a filosofia medieval foi muito mais livresca (...) Um dos interesses básicos da filosofia medieval foi a harmonização das vozes discordantes no contexto da tradição (os grifos são nossos).
Kurt Flasch (1930-) está certo: o Cristianismo é uma religião do Livro – aliás, como o Judaísmo (e, posteriormente, o Islamismo). Está essencialmente ligado à escrita.
Nos primeiros séculos da expansão do Cristianismo na Europa, os iluministas que decoraram as Escrituras (e evangeliários, saltérios etc.) representaram costumeiramente os quatro evangelistas redigindo seus respectivos evangelhos. Assim, firmaram solidamente essa imagem na tradição manuscrita: um homem com um livro, escrevendo, absorto, meditando o que escreveu. Consolidaram imageticamente o vínculo cultural entre a fé e o texto.
Além de viver do livro, diferentemente do Islamismo, por exemplo (em que o Alcorão regula a vida dos muçulmanos), o Cristianismo crê que Cristo é o Verbo (λóγος) encarnado e vivo, isto é, palavra pensada, meditada, refletida, ou seja, plenitude do pensamento.
Um dos motivos basilares da importância dos livros para a formação espiritual na Idade Média foi o protagonismo das Sagradas Escrituras na conversão consciente:
Que ninguém despreze a tua jovem idade. Quanto a ti, sê para os fiéis um modelo na palavra, na conduta, na caridade, na fé, na pureza. Esperando a minha chegada, aplica-te à leitura, à exortação, à instrução. Não descuides do dom da graça que há em ti, que te foi conferido mediante profecia, junto com a imposição das mãos do presbitério. Desvela-te por estas coisas, nelas persevera, a fim de que a todos seja manifesto o teu progresso (1Tm 4, 12-15) (os grifos são nossos).
O instrumento material que auxiliou a trilha dessa via do ser foi a Bíblia. O amor aos livros profanos naturalmente daí decorreu. As bibliotecas surgiram como espaços ideais para a meditação daquelas palavras escritas. E uma das primeiras dessa nova tradição considerativa foi a de Vivarium, de Cassiodoro (c.485-585).
Antes de se retirar da vida pública, Cassiodoro foi um político: questor (507-511), cônsul ordinário (514), prefeito da pretoria (533) e chanceler real (magister officiorum) por trinta anos. Tudo sob o reinado da Itália do rei ostrogodo (e ariano) Teodorico, o Grande (454-526). Também foi um notável literato, pois autor de uma vasta obra: escreveu tratados históricos, filosóficos, gramaticais, além de panegíricos e cartas.
Cassiodoro foi contemporâneo de Boécio (c.477-524). Como ele, ansiou transmitir aos pósteros a cultura da Antiguidade. Católico, com o papa Agapito I (c.490-536) planejou a fundação de uma escola de estudos cristãos em Roma, mas o projeto foi abortado por causa da Guerra Gótica (535-554), estopim bélico que o obrigou a se exilar em Constantinopla com o papa Vigílio (c.500-555).
Com o fim da guerra, Cassiodoro retornou para a Itália. Tinha cerca de sessenta anos quando então decidiu se retirar da vida pública e fundar um mosteiro em uma de suas propriedades, possivelmente em Squillace, na Calábria (sul da Itália): Vivarium (ou Castellum).
Além do mosteiro, em Vivarium havia uma biblioteca, um scriptorium – aposento preparado para o trabalho de copiar e ilustrar (iluminar) obras antigas – e um viveiro para a criação de peixes:
A localização do Monastério Vivariense vos convida a preparar muitas coisas aos peregrinos e necessitados, uma vez que tendes jardins irrigados e, próximo a eles, as águas do Rio Pellena que é repleto de peixes e que não deve ser tido como perigoso pelo tamanho de suas ondas nem como desprezível por sua pequenez (...) Há também mares que vêm até vós, abertos de tal modo a pescadores que, quando desejardes, a pesca pode ser colocada nos viveiros. Pois fizemos lá, com a ajuda do Senhor, tanques apropriados onde a multidão de peixes possa vagar sob o fiel monastério (...) Ademais, mandamos que construíssem banhos, aptamente preparados a corpos doentes, onde fluem propícias águas transparentes, que são perfeitas tanto para beber como para tomar banho.
Lá Cassiodoro lançou um programa cultural baseado no estudo do Trivium (Gramática, Dialética e Retórica) e no Quadrivium (Aritmética, Geometria, Música e Astronomia).
Essas disciplinas já haviam sido apresentadas como auxiliares (servas) da Filologia na obra Sobre o Casamento da Filologia e Mercúrio (De Nuptiis Philologiae et Mercurii, séc. V) de Marciano Capela (fl. 410-420), texto que serviu de inspiração para a base curricular de toda a Educação ocidental, do séc. V até pelo menos o Renascimento do séc. XII.
As disciplinas do Trivium são assim por Cassiodoro definidas:
A gramática é a arte de discursar com beleza, uma habilidade que adquirimos através dos poetas e autores ilustres (Inst., Livro II, cap. I, 1).
A retórica é a ciência do bem falar acerca de questões civis (Inst., Livro II, cap. II, 1).
Varrão definiu a dialética e a retórica em Nove livros das disciplinas, usando a seguinte comparação: “Dialética e retórica são o punho fechado e a palma aberta da mão de um homem”. Uma encerra os argumentos numa breve oração, a outra percorre os campos da eloqüência com um discurso abundante; uma contrai a linguagem, a outra a distende (Inst., Livro II, cap. III, 2).
E o Quadrivium:
Os escritores das letras seculares estabeleceram a aritmética como a primeira entre as disciplinas matemáticas, porque a música, a geometria e a astronomia, que a seguem, precisam dela para explicar suas noções (Inst., Livro II, cap. IV, 1).
Ao tratar da Música, Cassiodoro nos proporcionou uma de suas mais belas definições:
“A música difunde-se por todos os atos de nossa vida à medida que praticamos sobretudo os mandamentos do Criador e obedecemos de coração puro às regras por Ele instituídas. O que quer que digamos, o que quer que nos mova desde dentro pelo pulsar das veias, está associado pelos ritmos musicais à força da harmonia. A música é, como se vê, a ciência da correta modulação. A ela nos ligamos quando fazemos uso do bom convívio em nossas relações.
Mas quando praticamos iniquidades, já não possuímos música. O céu, a terra e todas as coisas neles realizadas pelo governo divino estão vinculadas à disciplina musical; ora, Pitágoras atesta que este mundo foi criado e pode ser governado por meio da música (Inst., Livro II, cap. IV, 2)”.
E a Geometria e a Astronomia:
“Voltemo-nos agora à geometria, que é a descrição especulativa das formas e a prova visível de que dispõem os filósofos (...) Tudo o que é bem arranjado e acabado pode ser atribuído às qualidades dessa disciplina (...) A geometria é, em verdade, a ciência da extensão imóvel e das formas (Inst., Livro II, cap. VI, 1 e 2).
Resta tratar da astronomia. Se a buscamos com espírito moderado e casto, ela esclarece nossas ideias, como dizem os antigos, com grande luminosidade. É como subir com a alma até os céus, examinar racionalmente toda aquela máquina suprema e colher, em parte, com a sutileza contemplativa da inteligência, o que os mistérios de tanta grandeza esconderam. Ora, diz-se que o próprio mundo foi encerrado na circularidade esférica para encerrar as formas das coisas no espaço circular de sua órbita. Donde Sêneca compôs um livro em forma de diálogo, como é costume entre os filósofos, cujo título é Da forma do mundo. Livro que também vos deixamos para ler (...) A astronomia é, portanto, como já foi dito, a ciência que versa sobre o curso dos astros no céu. Ela investiga todas as formas e percorre as configurações das estrelas em relação a si mesmas e à Terra (Inst., Livro II, cap. VII, 2, 1 e 2)”.
A proposta de Cassiodoro em suas Instituições foi preservar o patrimônio cultural antigo. Por isso, na biblioteca de Vivarium figuravam obras gregas de Homero (séc. VIII a.C.), Hipócrates (c.460-370 a.C.), Platão (c.427-348 a.C.), Aristóteles (384-322 a.C.), Euclides (fl.300 a.C.), Arquimedes (c.287-212 a.C.), Galeno (129-216) e Ptolomeu (c.100-170). De autores latinos, textos de Ênio (c.239-169 a.C.), Terêncio (c.195-159 a.C.), Varrão (116-27 a.C.), Cícero (106-43 a.C.), Lucrécio (c.99-55 a.C.), Salústio (86-35 a.C.), Virgílio (70-19 a.C.), Horácio (65-8 a.C.), Sêneca (4 a.C.-65 d.C.), Plínio, o Velho (23-79), Quintiliano (c.35-95) e Macróbio (fl.400).
Após sua morte, a biblioteca de Vivarium desapareceu sem deixar vestígios. Alguns de seus livros foram para a biblioteca papal, outros para bibliotecas de cidades episcopais (Pavia, Milão, Ravena e Verona). Mas o mais importante fora semeado: se não fosse o trabalho de seus monges copistas em Vivarium, possivelmente não teríamos conhecido as obras clássicas completas (com exceção das de Virgílio).
Por tudo isso, Cassiodoro já foi considerado um dos pais da Idade Média, não só por ter defendido a sabedoria antiga, a leitura dos clássicos e a necessidade de copiar suas obras para que não desaparecessem, mas sobretudo por ter influenciado Isidoro de Sevilha (c.560-636), Beda, o Venerável (c.672-735) e Alcuíno de York (c.735-804).
Contemporâneo de Cassiodoro, Bento de Núrsia (480-547) foi declarado Patrono da Europa pela Igreja Católica. Com sua Regra (c.530), fundou um programa de vida, com disciplina e moderação, ordem e obediência, hierarquia na igualdade.
Após a morte de Bento, sua Regra recebeu a bênção do papa Gregório Magno (c.540-604):
“...o homem de Deus, além dos muitos milagres pelos quais se destacou no mundo, também se tornou notavelmente célebre em virtude da palavra de sua doutrina. Com efeito, escreveu uma regra monástica que é notável pelo espírito de discernimento e clara pela sua linguagem. Se alguém quiser conhecer mais profundamente a sua vida e os seus costumes, poderá encontrar na própria doutrina da regra os princípios de seu magistério, haja vista que o homem santo não poderia de nenhum modo ensinar outra coisa a não ser aquilo que ele mesmo viveu (os grifos são nossos)”.
Graças à Regra e ao apoio do papado, a Ordem beneditina espalhou-se pela Europa. Para o tema que aqui nos interessa, a Ordem criou escolas monásticas por todo o continente que, pelas circunstâncias históricas refratárias ao estudo, se transformaram em refúgios da cultura intelectual.
Na Regra, há determinações expressas para que os monges beneditinos se dediquem à leitura:
Capítulo 38 - Do leitor semanário
1. Às mesas dos irmãos não deve faltar a leitura; não deve ler aí quem quer que, por acaso, se apodere do livro, mas sim o que vai ler durante toda a semana, a começar do domingo.
Capítulo 48 - Do trabalho manual cotidiano
1. A ociosidade é inimiga da alma; por isso, em certas horas devem ocupar-se os irmãos com o trabalho manual, e em outras horas com a leitura espiritual (...).
4. Da hora quarta até mais ou menos o princípio da hora sexta, entreguem-se à leitura (...).
10. De 14 de setembro até o início da Quaresma, entreguem-se à leitura até o fim da hora segunda (...),
13. Depois da refeição, entreguem-se às suas leituras ou aos salmos.
14. Nos dias da Quaresma, porém, da manhã até o fim da hora terceira, entreguem-se às suas leituras, e até o fim da décima hora trabalhem no que lhes for designado.
15. Nesses dias de Quaresma, recebam todos respectivamente livros da biblioteca e leiam-nos pela ordem e por inteiro;
16. esses livros são distribuídos no início da Quaresma (...).
23. Também no domingo, entreguem-se todos à leitura, menos aqueles que foram designados para os diversos ofícios.
24. Se, entretanto, alguém for tão negligente ou relaxado, que não queira ou não possa meditar ou ler, determine-se-lhe um trabalho que possa fazer, para que não fique à toa.75
Ora et labora. Acrescente-se que labora não diz respeito apenas ao trabalho manual, mas também inclui, como se percebe nas passagens acima da Regra, a leitura, o estudo – e, consequentemente, a meditação do que se leu (além do trabalho de copiar textos para enriquecer a biblioteca do mosteiro).
E também Scienter nescia et sapienter indocta (“conscientemente ignorante e sabidamente sem instrução”): trata-se da douta ignorância, incessante (e instigante) paradoxo na vida cultural da Igreja.
Claro que essa perplexidade existencial da associação beneditina do trabalho manual com o trabalho intelectual (ou da vida ativa com a vida contemplativa) é mais do que isso. O sintético aforismo da douta ignorância (desenvolvido filosoficamente por Nicolau de Cusa [1401-1464]), não significa que devemos aceitar passivamente nossas dificuldades compreensivas.
Pelo contrário: ele expressa a ideia de que o reconhecimento tanto de nossa insignificância intelectual quanto nossa pequenez diante do universo são pressupostos fundamentais para a verdadeira aquisição do conhecimento, predisposição livre de preconceitos, com a mente e o coração abertos e espontaneamente dispostos a aprender a maravilha da Criação.
Por isso, a tradição beneditina logo desenvolveu um conceito amplo, o de paisagem cultural– a biblioteca como o epicentro de um ambiente total (além de abrigar o reservatório livresco propriamente dito, ser um local para leitura e cópia de obras manuscritas), privilegiado lugar de estudo diretamente ligado a seus mosteiros
De Bento a Isidoro, quase um século se passou. A cultura recuou – foram tempos particularmente difíceis para os amantes da leitura, das bibliotecas. Por volta do ano 600, epicentro da vida de Isidoro de Sevilha (c.560-636), a maior parte dos mosteiros espalhados pela Europa não tinha interesse pela cultura. Suas bibliotecas abrigavam basicamente livros litúrgicos e a Bíblia, mas quase nada de literatura clássica.
Em contrapartida, as sementes estavam sendo plantadas: por exemplo, no reino merovíngio, as bibliotecas das recém fundadas abadias de Sainte-Geneviève (c. 520), Saint-Germain-des-Prés (558) e a de Saint-Denis (c. 650) tornam-se, pouco a pouco, as mais ricas do reino até o final de Antigo Regime.
Nesse contexto refratário às letras, ainda que frutuoso, não deixa de ser notável o surgimento em cena do bispo Isidoro de Sevilha. Como a ele se referiu Bráulio (c.590-651), também bispo (visigodo), mas de Zaragoza:
“Depois de tanta miséria, Deus fez surgir, creio eu, para restaurar os monumentos dos antigos e apartar de nós em qualquer ocasião o envelhecimento da ignorância e o colocou próximo de nós como um tutor”.
Sua obra mais famosa, Etimologias, foi redigida graças à sua notável biblioteca, mas sobretudo por sua refinada educação, provavelmente adquirida na escola episcopal de Sevilha (estes centros episcopais hispânicos eram então herdeiros diretos das antigas escolas municipais do Império Romano).
Para redigir seu opus magnum, Isidoro se valeu tremendamente da cultura clássica. Um levantamento feito de suas citações dão o mapa de sua vasta cultura profana, de modo semelhante a Cassiodoro, porém ainda mais amplo: Virgílio (70-19 a.C.), duzentas e sessenta e seis citações (nominalmente mais de cem vezes); Cícero (106-43 a.C.), cinquenta e sete citações, trinta e nove nominais; Lucano (39-65), quarenta e cinco citações, trinta e duas nominais.
Com uma média de quinze citações, os dramaturgos Ênio (239-169 a.C.) e Plauto (230-180 a.C.), Terêncio (195-159 a.C.), Lucrécio (c.99-55 a.C.), Salústio (86-35 a.C.), Horácio (65-8 a.C.), e os poetas Ovídio (43 a.C.-17 d.C.) e Marcial (c.40-104).
Por fim, dos cristãos, Ambrósio de Milão (340-397), os poetas Prudêncio (348-413), Dracôncio (c.455-505) e Sedúlio (séc. V), Paulino de Nola (354-431), Jerônimo (340-420) e Agostinho (354-430).
Para ater-nos exclusivamente às artes liberais, Isidoro dá um passo a mais em relação a Cassiodoro e não só as define, mas aprofunda seus conteúdos. Assim, a obra passa a ter um novo e original caráter, consultivo, enciclopédico, e cumpre a notável função de ser um confiável canal de transmissão da cultura antiga à Idade Média.
No Livro VI de suas Etimologias, Isidoro aborda o tema: “Dos livros e ofícios eclesiásticos”, e nele define e, de modo sucinto, historiciza a ideia de biblioteca:
“1. O termo biblioteca foi herdado do grego, e é lá que os livros ficam armazenados, já que biblíon “livro”, e theka, “lugar em que se coloca algo”.
2. Os livros do Antigo Testamento foram reparados por Esdras, escriba, inspirado pelo Espírito Santo, após terem sido queimados pelos caldeus enquanto os judeus voltavam a Jerusalém. Ele organizou todo o Antigo Testamento em vinte e dois livros, de modo que havia na Lei tantos livros quantas as letras do alfabeto.
3. Acredita-se que Pisístrato, tirano ateniense, foi o primeiro entre os gregos a fundar uma biblioteca que, depois de ser enriquecida pelos atenienses, foi trasladada para a Pérsia por Xerxes após o incêndio de Atenas. Muito depois, Seleuco Nicátor a fez regressar à Grécia.
4. Desde então, reis e várias cidades desejaram ter volumes de diversas procedências e traduzi-los para o grego por intérpretes.
5. Alexandre Magno e seus sucessores tiveram todo o interesse em dotar as bibliotecas com todo o tipo de livros. Especialmente Ptolomeu Filadelfo, o mais profundo conhecedor de toda a Literatura, tratou de emular a Pisístrato em seu cuidado pelas bibliotecas e dotou a sua própria não só de obras dos gentios, mas também das Sagradas Escrituras. Em sua época estavam catalogados em Alexandria setenta mil livros.”
A passagem acima das Etimologias mostra a relação direta que Isidoro estabelece entre o suporte do livro, cristão – o códice – e a tradição religiosa católica. Inclusive cronologicamente: da Grécia para o universo judaico, ao citar nominalmente o sacerdote (e escriba) Esdras (עזרא, fl. 480-440 a.C.), personagem fundamental para restaurar as escrituras judaicas após o retorno do cativeiro babilônico. Do papiro para o códice. Da Grécia e da tradição judaica para o códice e a tradição cristã.
Mas Isidoro não se esqueceu de Roma. Logo a seguir se volta para o mundo romano para então depois tratar de “nossas bibliotecas”:
“5.1. O primeiro a suprir Roma com livros foi Emílio Paulo, após a derrota de Perseu, rei dos macedônios; depois dele, Lúculo, dos despojos do Ponto. A seguir, César confiou a Marco Varrão a missão de construir uma grande biblioteca.
5.2. O primeiro a abrir em Roma uma biblioteca pública foi Polião, com obras gregas e latinas acrescidas com imagens dos autores no átrio, magnificamente dispostas à mão.
6.1. Entre nós, foi o mártir Pânfilo, cuja vida foi escrita por Eusébio de Cesareia, o primeiro a se esforçar para se igualar a Pisístrato no estudo da biblioteca sagrada. Chegou a ter em sua biblioteca cerca de trinta mil volumes.
6.2. Também Jerônimo e Genádio procuraram por todo o orbe obras de escritores eclesiásticos, catalogando-as ordenadamente, e reuniram em pequeno índice de um volume os trabalhos daqueles autores”.
Como se percebe na passagem acima, Isidoro determina que os primeiros cristãos a terem uma biblioteca viveram ao redor do século IV, e tiveram interesses sobretudo teológicos. Essa afirmação do bispo de Sevilha não era novidade para os cristãos cultos. Isso já havia sido constatado na História Eclesiástica, do bispo Eusébio de Cesaréia (c.260-339): segundo ele, seu professor (e amigo) Pânfilo (†309), mártir, tinha grande zelo pelas coisas divinas e conseguiu reunir em sua biblioteca muitas obras de escritores eclesiásticos – como reafirma Isidoro, trezentos anos depois.
Mais: Eusébio nos informa que, em seu tempo, ainda existia a Biblioteca de Élia – a mais antiga biblioteca cristã com datação comprovada, originalmente fundada por Alexandre – onde ele pôde reunir material para escrever sua História.
Isidoro inicia suas Etimologias com as sete artes liberais, baseado em Cassiodoro. São artes porque se baseiam em regras, e tratam do que é verossímil e opinável. A Gramática é a perícia no ato de falar; a Retórica, a eloquência; a Dialética separa o verdadeiro do falso; a Aritmética fundamenta os números; a Música, as métricas e os cantos; a Geometria, as medidas e as dimensões terrenas e, por fim, a Astronomia, as leis dos astros.
O bispo de Sevilha teve à sua disposição mais fontes do que Cassiodoro – certamente sua biblioteca era mais diversificada que a de Cassiodoro. Para tratar da Gramática (um verdadeiro tratado nas Etimologias!), além de literalmente citar Aristóteles (384-322 a.C.), Ênio (239-169 a.C.), Varrão (116-27 a.C.), Virgílio (70-19 a.C.), Lucano (39-65) e Donato (c.310-380), Isidoro se baseia em Cícero (106-43 a.C.), Quintiliano (c.35-100), Agostinho (354-430), Jerônimo (c.342-420), Pompônio Porfirião (séc. III, gramático africano comentador de Horácio), Diomedes, o Gramático (séc. IV), Flávio Sosípater Carísio (séc. IV), Mário Sérvio Honorato (séc. IV) e Prisciano (fl. 500).
Para que o leitor tenha uma ideia de sua riqueza expositiva e erudição, na seção dedicada aos tropos (expressões em sentido figurado – metáforas, catacreses, metalepses, metonímias etc.), Isidoro oferece exemplos literários para cada um deles.
A mesma metodologia é aplicada para a Retórica. Há uma passagem importante que trata da coerência, isto é, a obrigatória organicidade entre discurso e prática – que Isidoro chama de pureza latina, provavelmente devido à tradição romana da palavra dada. A Cícero97:
“A Retórica é a ciência de falar bem nas questões cívicas e com os adequados recursos da eloquência para persuadir o que é justo e o que é o bem. O nome Retórica deriva do grego rhetorídsen, que quer dizer “recurso da palavra”, já que entre os gregos “palavra” se chama rhésis e, orador, rhétor. A Retórica está inseparavelmente ligada à arte da Gramática. Com a Gramática aprendemos a falar corretamente e, com a Retórica, a expor os conhecimentos adquiridos.
(...)
O orador é um homem bom, perito na arte de falar. A retidão do homem se baseia em sua natureza, em seus costumes e em suas qualidades. Sua experiência se baseia em uma eloquência regulada por normas e que tem cinco partes: invenção, disposição, elocução, memória e pronunciação.
(...)
Fala com pureza latina aquele que utiliza palavras apropriadas e verdadeiras sem se distanciar da maneira de falar e da elegância próprias da época em que vive. Quem se expressa dessa maneira não considera suficiente meditar o que diz, mas dizê-lo com clareza e de modo suave. Mais: deve praticar o que diz! (os grifos são nossos)”.
Em outras palavras: é condição sine qua non para a educação católica praticar a ética que está intrínseca (e deve ser ressaltada) nos conteúdos ensinados. É a tão ansiada harmonia entre atos e palavras, como admoestou o Cristo!99 Sem Isidoro de Sevilha e seu metódico e bibliófilo trabalho de enciclopedista da tradição literária e científica da Antiguidade, a transmissão da cultura clássica teria sido praticamente impossível.100
Justamente nesse período culturalmente declinante – mesmo com esparsas, porém brilhantes luzes como Isidoro de Sevilha –, a Igreja deu um novo impulso à cultura cristã. O papa Gregório Magno (c. 540-604), certo de que o mundo se aproximava do fim e que era preciso salvar almas enquanto fosse possível, enviou o monge beneditino Agostinho (†c.604), de temperamento tristis et dubitans, com quarenta irmãos às ilhas britânicas para converter os saxões, “povo bárbaro, selvagem e incrédulo”. E levou livros. Muitos códices foram enviados de Roma à Inglaterra, especialmente York (cidade originalmente fundada pelos romanos – Constantino fora ali designado imperador, em 306, e aceito pelas tropas).Ŧ
Aquela preocupação apocalíptica papal curiosamente desencadeou um notável processo livresco: o monge (também) beneditino Winfredo (c.672-754), de Devonshire (Wessex), foi educado nesse ambiente bibliófilo, nos mosteiros de Essex e Nursling (ambas localidades fundadas pelos romanos).104 Ao peregrinar a Roma em 718, Winfredo expôs ao papa Gregório II (669-731) seus planos missionários. Recebeu então do pontífice o nome de Bonifácio, o apostolado das gentes pagãs e, posteriormente (732), do papa Gregório III (†741) o pallium episcopal, o que lhe conferia o poder de fundar novas sedes episcopais.105
Com a proteção (mundeburdio106) de Carlos Martel (c. 688-741), então em campanha militar na Baviera, Bonifácio viajou à Turíngia, Frísia e Hesse, onde realizou conversões especialmente após cortar o Carvalho de Donar (por volta de 723), árvore sagrada para os pagãos germânicos. Essa façanha nos informa a Vida de São Bonifácio, hagiografia escrita por São Willibaldo, bispo de Eichstätt (c.700-787):
“...naquela época, muitos hessianos foram trazidos para a fé católica e, confirmados pela graça do espírito septiforme, aceitaram a imposição de mãos; outros, ainda não confortados em suas almas, recusaram-se a aceitar integralmente as evidências da fé; outros praticavam secretamente aruspícios, adivinhações, conjurações e encantamentos, e outros faziam tudo isso abertamente. Alguns se voltavam para auspícios, presságios e introduziam rituais de sacrifícios. Mas também havia quem, por terem uma mente mais sã, abandonaram as profanações pagãs e não praticavam mais nenhuma dessas coisas.
Aconselhado por estes últimos, o santo tentou derrubar, em um lugar chamado Gésmere, um carvalho de extraordinário tamanho, chamado no antigo vocábulo pagão de Árvore de Júpiter, com os servos de Deus a seu lado. Confortado pela determinação de sua mente, ele cortou a árvore, na presença de muitos pagãos que, devota e diligentissimamente, amaldiçoavam o inimigo de seus deuses. Mas quando ele cortou um pequeno pedaço da árvore, imediatamente o enorme volume de carvalho, impulsionado por um sopro divino vindo do alto, quebrou o cume da palmeira e caiu. Como por um sinal superior se quebrou em quatro partes, e quatro enormes troncos iguais em comprimento apareceram sem qualquer trabalho dos irmãos presentes.
Ao verem isso, os devotos pagãos que antes abjetamente amaldiçoavam, voltaram atrás, tornaram-se crentes e abençoaram o Senhor. Então, aquele ancião da mais elevada santidade tomou conselho com os irmãos e construiu um oratório de madeira com o material da supracitada árvore e o dedicou em honra a São Pedro, o Apóstolo”.
Com a madeira do carvalho pagão derrubado, Bonifácio ergueu uma capela dedicada a São Pedro, próximo do futuro mosteiro de Fritzlar (atualmente distrito de Schwalm-Eder).
Quando foi enviado como missionário às terras germânicas com três outros monges, pediu que lhe enviassem livros da Inglaterra para as bibliotecas das novas sés episcopais (Mogúncia e Salzburg), e dos mosteiros que fundou, especialmente o de Fulda.Seu scriptorium, sua escola e, naturalmente, sua biblioteca, foram fundamentais para a difusão da conversão – e aculturação – da Europa, pelo menos até a época moderna.
Três anos após proceder à unção real de Pepino, o Breve (c. 714-768), em Saint-Denis, Bonifácio foi martirizado pelos frísios em 754. Em um detalhe de uma iluminura do Sacramentário de Fulda (séc. XI), ele morre em seu martírio abraçado a um livro – que se conserva ainda hoje, tingido com o sangue do mártir: é o tratado de Isidoro de Sevilha, De officiis ecclesiasticis (imagem 15)!
Não é exagero afirmar que o trabalho de São Bonifácio lançou as bases culturais da cristandade medieval. Seu programa de construção e reforma seguiu os métodos da tradição romana. Suas fundações monásticas, especialmente Fulda, passaram a ser centros de cultura intelectual cristã, de ação missionária e de civilização material.113 Os mosteiros tomaram o lugar das cidades romanas, então moribundas, e permaneceram como centros de cultura até o desabrochar das cidades medievais e do ensino universitário no século XII.
Isidoro de Sevilha representa o desabrochar hispânico do longo e amoroso processo de cultivo das Letras, de paixão pelos manuscritos, da devoção à vida meditativa. São Bonifácio, por sua vez, é um exemplo de quão importantes foram os mosteiros medievais para a preservação das obras da Antiguidade. Por exemplo, à guisa de conclusão, somente no scriptorium de Fulda foram copiadas, entre outras, as seguintes preciosidades:
1) Ambrosianus L 85 sup. (com o De agricultura de Columela [4-70]);
2) Bamberg Msc. Clas. 54 (Historia Augusta);
3) Laurentianus 47, 36 (as Epístolas, de Plínio, o Jovem [61-113]);
4) Leeuwarden 55 (as Noites áticas, de Aulo Gélio [c. 125-180]);
5) Tacitus Codex Laurentianus Mediceus 68.1. (os Anais de Tácito [c.56-120]);
6) Vaticanus latinus 1874 e o Cassel Phil. 2° 27 (dois códices das Res gestæ de Amiano Marcelino [c.330-400]);
7) Vaticanus latinus 3277 (as Argonáuticas, de Caio Valério Flaco [c.45-95]);
8) Códice com o Diálogo dos oradores e a Germânia, de Tácito;
9) códice com a obra De re coquinaria de Marco Gávio Apicio (séc. I);
10) Um dos códices da obra De rerum natura de Lucrécio (c. 99-55 a.C.) e
11) Ms. 8 da Biblioteca do conde Baldeschi-Balleani (com De grammaticis et rethoribus, de Suetônio [c. 69-122]).
Sem as sementes clássicas e os troncos monásticos alto-medievais, não existiriam as árvores dos renascimentos posteriores – nem as tradições bibliotecária, museológica e arqueológica da história do Ocidente. Somos gratos aos nossos antepassados europeus por terem legado a nós, pósteros, o cultivo à Arte, à Cultura, à Educação Superior.
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