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Bedlam: o macabro hospício que torturava seus pacientes

Fundado no século XIII, o hospital ficou conhecido por transformar o sofrimento mental em espetáculo público.

Por
Gabriel Costa
Publicado em
Bedlam
Fonte da imagem: Reprodução

Em qualquer época da história, pessoas sofreram com transtornos mentais. Hoje, há tratamento médico, protocolos éticos e cuidado humanizado. Mas nem sempre foi assim.

Durante séculos, problemas mentais foram tratados como espetáculo. Nenhum lugar simboliza isso tão bem quanto o Bethlem Royal Hospital, em Londres, conhecido pelo apelido que entraria para o dicionário inglês como sinônimo de desordem e caos: Bedlam.

O hospital foi fundado em 1247, tornando-se o hospital mais antigo da Europa dedicado exclusivamente ao tratamento de pessoas com doenças mentais.

A instituição foi criada pelo bispo italiano Goffredo de Prefetti e erguida em um local insalubre, diretamente sobre um esgoto que frequentemente transbordava.

Curiosamente, o hospital não nasceu como um manicômio. Seu objetivo inicial era arrecadar fundos para as Cruzadas, por meio da coleta de esmolas.

Não se sabe exatamente quando passou a receber indigentes com distúrbios mentais, mas registros indicam que, por volta de 1330, o local já era oficialmente chamado de hospital.

Da Igreja ao Estado e ao colapso

Por volta do ano 1600, o controle do Bethlem foi transferido da Igreja para o Estado. Com o passar dos séculos, o hospital se deteriorou física e moralmente.

Superlotado, degradado e sem espaço, acabou sendo transferido apenas em 1975 para o norte de Londres, na cidade de Beckenham.

Na antiga entrada do hospital, duas estátuas davam o tom do que ocorria ali dentro:

  • Melancholy, representando uma figura apática e abatida;
  • Raving Madness, mostrando um homem acorrentado, em fúria.

Tratamentos que hoje seriam crimes

À medida que o hospital recebia mais pacientes, os métodos se tornaram cada vez mais brutais.

Um dos procedimentos mais comuns era a terapia rotacional. O paciente era amarrado a uma cadeira suspensa e girado violentamente, às vezes a mais de 10 rotações por minuto. Vômito e desmaios eram frequentes. Na época, essas reações eram interpretadas como sinais positivos de “cura”.

Em 1728, o médico James Monro assumiu a chefia do hospital, iniciando uma dinastia familiar que controlaria o Bethlem por cerca de quatro gerações. Sob sua gestão, os tratamentos se tornaram ainda mais severos.

Os pacientes eram:

  • espancados;
  • submetidos a banhos gelados;
  • mantidos longos períodos em jejum;
  • tratados com sanguessugas, ventosas e indução de bolhas na pele.

A taxa de mortalidade era tão alta que o hospital evitava internar pacientes considerados fracos demais para suportar os procedimentos. Investigações posteriores encontraram valas comuns na propriedade, destinadas aos que morreram sob “tratamento”.

O manicômio virou atração turística

O período mais chocante da história do Bedlam começou quando suas portas foram abertas ao público. A justificativa inicial era permitir visitas familiares. Mas rapidamente o hospital percebeu o potencial financeiro da curiosidade humana.

Famílias ricas de Londres passaram a pagar para entrar no manicômio e observar os internos como se estivessem diante de um zoológico humano. Os surtos, gritos e comportamentos extremos viraram entretenimento. O sofrimento virou atração.

O Bethlem Royal Hospital não é apenas um capítulo da história da psiquiatria. Sua trajetória mostra como o tratamento de pessoas com transtornos mentais mudou ao longo dos séculos.

Não por acaso, “bedlam” entrou para o vocabulário inglês como sinônimo de confusão, desordem e caos absoluto.

Um lembrete histórico de até onde a civilização pode ir quando o sofrimento humano deixa de causar compaixão e passa a gerar lucro.

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