A sua figura é debatida até hoje por alguns que o colocam como herói e outros que o apontam como farsa.

Antes de ser rosto em feriado e nome em praça, Joaquim José da Silva Xavier era um homem inquieto e longe de ser o mártir perfeito que a história oficial construiu.
Nascido por volta de 1746, na região de São João del-Rei, ficou órfão ainda criança e cresceu sob os cuidados de parentes.
Não viveu na miséria. Ao contrário: teve terras, gado, escravos e uma vida relativamente estável. Teve também uma filha, fora do casamento, um detalhe raramente lembrado quando se fala no herói nacional.
Foi tropeiro, comerciante, minerador e dentista, atividade que lhe rendeu o apelido. Como prático da saúde, extraía dentes, produzia próteses e receitava remédios.
Chegou até a idealizar projetos de engenharia para abastecimento de água no Rio de Janeiro. Era um homem de ação, mais próximo do improviso do que da teoria.
Ao ingressar nos Dragões de Minas, em 1775, passou a conviver diretamente com a estrutura do poder colonial. Mas a carreira não avançou.
Ficou preso ao posto de alferes, sendo constantemente ignorado em promoções. A frustração não era apenas pessoal, ela se transformou em crítica política.
Influenciado por ideias iluministas e pela independência dos Estados Unidos, começou a questionar abertamente o domínio português.
Lia obras proibidas, discutia política em público e defendia que Minas Gerais deveria se libertar da exploração da Coroa.
Entre os conspiradores, muitos eram ricos, influentes e discretos. Tiradentes era o oposto: o mais exposto, o mais falante e o mais disposto a agir.
No plano do levante, pediu para si a missão mais arriscada: liderar a tomada do poder no dia da Derrama, prender o governador e executar o símbolo da autoridade portuguesa. A revolução, para ele, precisava começar com um gesto claro. Mas ela nunca começou.
Denunciado por Joaquim Silvério dos Reis, Tiradentes foi preso em 1789, no Rio de Janeiro, após semanas escondido. Não resistiu.
Durante os interrogatórios, tentou inicialmente negar envolvimento. Mas, com o colapso da conspiração, mudou de postura.
Assumiu a responsabilidade quase sozinho, um gesto que marcaria sua memória histórica. Pediu aos juízes que fizessem dele “a única vítima da lei”.
Em 1792, a sentença foi lida. Enquanto outros envolvidos tiveram a pena convertida em exílio, Tiradentes foi condenado à morte. Sem família poderosa ou influência política, era o nome ideal para servir de exemplo.
Na manhã de 21 de abril, foi levado à forca no Rio de Janeiro. Pediu apenas uma coisa ao carrasco: rapidez.
Depois do enforcamento, seu corpo foi esquartejado. A cabeça, exposta em Vila Rica. Os membros, espalhados pelo caminho. A casa, destruída. O terreno, salgado. A mensagem era apagar qualquer vestígio.
Décadas depois, com a Proclamação da República, Tiradentes foi resgatado e reconstruído. Sua imagem passou a lembrar Jesus Cristo: barba longa, olhar sereno, aura de sacrifício.
O homem real, porém, era mais complexo: proprietário de escravos, impulsivo, falante, inconformado e disposto a pagar o preço por aquilo que acreditava.
Entre o personagem histórico e o símbolo nacional, Tiradentes continua sendo uma pergunta aberta:
o que transforma alguém em herói: a vida que viveu ou a forma como morreu? Veja o episódio abaixo e se aprofunde mais neste debate: