Submarino nuclear não precisa emergir e é mais discreto do que os tradicionais.

Há décadas o governo brasileiro tem trabalhado para construir um submarino com propulsão nuclear.
Essa é considerada uma arma estratégica, porque muda radicalmente o que uma embarcação consegue fazer.
Um submarino convencional, movido a diesel-elétrico, precisa emergir para reabastecer oxigênio, o que limita sua autonomia e velocidade.
O nuclear não tem essa restrição. Ele pode navegar submerso por períodos muito mais longos, cobrir distâncias em muito menos tempo e se mover com mais discrição.
O almirante Alexandre Rabello de Faria, chefe da Diretoria-Geral de Desenvolvimento Nuclear e Tecnológico da Marinha, contou o impacto que essa tecnologia pode causar entrevista à BBC:
"Digamos que a gente detecte uma ameaça que vem do mar no Norte ou no Nordeste do país. Um submarino diesel-elétrico talvez levasse uns 15 dias para chegar nessa região. Um submarino nuclear levaria três ou quatro".
O programa nuclear da Marinha brasileira completa 47 anos em 2026. Desde 2008, já foram investidos cerca de R$40 bilhões com as pesquisas.
Naquele ano, o Brasil assinou um acordo estratégico com a França e lançou o Prosub, programa que inclui quatro submarinos convencionais e a infraestrutura necessária.
Apesar dos avanços no setor, a data de entrega do submarino nuclear já foi alterada três vezes: saiu de 2024 para 2029, depois para 2033, e agora aponta para 2037.
O governo sempre justifica as mudanças de cronograma afirmando que falta orçamento para avançar.
O programa recebe cerca de R$2 bilhões por ano, mas precisaria de R$3 bilhões para manter os prazos atuais.
Em 2026, a Marinha fez um pedido emergencial de R$1 bilhão para evitar a paralisação das obras.
"Não vejo risco de o projeto ser paralisado, mas, se o nível de investimento for mantido, o ritmo do projeto aponta para mais tempo de execução. É contra isso que temos batalhado", disse Rabello à BBC.
Questionado sobre se o submarino ficaria pronto em 2037 com o ritmo atual de investimentos, a resposta foi direta:
"Essa é uma possibilidade. Na medida em que você precisa de X e recebe X menos alguma coisa, você terá que ajustar."
Atualmente, técnicos civis e militares trabalham na montagem do Laboratório de Geração Nucleoelétrica, o Labgene, em Iperó, no interior de São Paulo.
Lá será construído em terra um protótipo do reator para testes de segurança. A meta é colocar o reator em funcionamento nos próximos cinco anos e iniciar a construção do casco em 2027.
O submarino será armado apenas com torpedos e mísseis convencionais, é importante destacar que o Brasil abriu mão de produzir armas nucleares após assinar o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares (TNP).
Com a guerra na Ucrânia e o conflito entre Irã, EUA e Israel, Rabello avalia que o projeto ganhou urgência.
O Brasil tem mais de 8 mil quilômetros de costa e, segundo o almirante, a fronteira marítima está entre as mais vulneráveis do país:
"O mar é a nossa fronteira mais vulnerável. Dispor de um elemento que traga alguma forma de dissuasão, como é o caso do submarino nuclear, traz ao projeto uma relevância maior num mundo cada vez mais instável", disse.
Sobre a nova política de segurança americana, que prevê reforçar a influência dos EUA no hemisfério ocidental, Rabello disse reconhecer as preocupações.
Ainda assim, ele classificou os americanos como "parceiros seculares" da Marinha brasileira, mas avaliou que o Brasil não pode abrir mão da sua autonomia estratégica:
"O Brasil não pode abrir mão dessa tecnologia e desse ativo militar. Na Marinha, tratamos isso como uma essencialidade estratégica."
O almirante defende que o Brasil tenha ao menos três submarinos nucleares, número que permitiria manter sempre pelo menos um em operação enquanto os outros estão em manutenção.