Papa responde que não tem medo do governo americano e afirma enxergar política externa de forma diferente de Trump.

Donald Trump afirmou que o papa Leão XIV só foi eleito porque a Igreja Católica queria alguém capaz de lidar com ele.
Trump afirmou que o pontífice não estava em nenhuma lista de candidatos ao papado e foi uma "surpresa chocante" para o próprio conclave.
“Leo deveria ser grato porque, como todos sabem, ele foi uma surpresa chocante. Ele não estava em nenhuma lista de candidatos a Papa e só foi colocado lá pela Igreja porque era americano e eles acharam que essa seria a melhor maneira de lidar com o Presidente Donald J. Trump”.
Trump também classificou Leão XIV como fraco, muito liberal e acusou o papa de agir como político, prejudicando a própria Igreja..
Antes de embarcar para sua visita ao continente africano, ele afirmou que não é político e que não tem medo do Governo Trump.
"Não somos políticos, não lidamos com política externa da mesma perspectiva que ele."
Diante das declarações dos dois, surge uma pergunta natural: a política tem algum papel na escolha de um papa?
Durante o conclave que elegeu Leão XIV, o bispo Dom Fernando Rifan concedeu uma entrevista à Brasil Paralelo. Para ele, a resposta é não.
"Não se pode analisar um conclave como se fosse uma eleição política. O papa não é eleito por plataforma de governo, não há palanque, campanha ou promessas. O que há é discernimento diante de Deus."
Dom Rifan lembrou que alguns papas na história recente não eram os favoritos em seus conclaves.
"João Paulo II não era cogitado, Bento XVI era tido como figura de transição e Francisco sequer aparecia entre os principais nomes. Isso acontece porque o critério ali não é político, mas espiritual."
Durante o processo, os candidatos se reúnem na Capela Sistina em totalmente fechados, sem telefone, sem internet e sem contato com o mundo externo.
Eles votam em segredo até que um candidato obtenha dois terços dos votos. Revelar qualquer informação sobre o processo é punível com excomunhão.
Uma das mais aconteceu em 1903, quando o imperador austro-húngaro Francisco José usou um antigo privilégio dos reinos católicos para vetar a eleição do cardeal Mariano Rampolla del Tindaro, candidato favorito do conclave.
O representante imperial leu o veto em latim dentro da Capela Sistina. Os cardeais protestaram, consideraram a interferência absurda e, ainda assim, Rampolla não ganhou um voto a mais após o episódio.
Naquele ano, foi eleito foi o cardeal Giuseppe Sarto, que se tornou Pio X. Seu primeiro ato foi abolir o direito de veto e punir com excomunhão qualquer cardeal que se tornasse canal de interferências políticas externas.
Mais recentemente, antes do conclave que elegeu Leão XIV, o jornal Tribune Chrétienne relatou que o presidente francês Emmanuel Macron teria mantido contatos com cardeais eleitores franceses.
O objetivo, segundo o veículo, seria se opor à possível eleição do cardeal Robert Sarah, africano e de perfil conservador.
O Vaticano não confirmou as informações.
Após as declarações de Trump, Leão XIV respondeu que não tem medo do Governo Trump e que não lidam de políticas internas da mesma forma.
"Não tenho medo do governo Trump, nem de falar abertamente sobre a mensagem do Evangelho, que é o que acredito ser minha missão. Não somos políticos, não lidamos com política externa da mesma perspectiva que ele. Mas acredito na mensagem do Evangelho, como um pacificador."
O embate se torna ainda mais significativo pelo fato de o atual líder da Igreja Católica ter nascido nos Estados Unidos e, mesmo antes de se tornar papa, já se posicionar contra as políticas migratórias do governo Trump.
Para entender a trajetória que levou Robert Prevost ao posto mais alto da Igreja Católica, a Brasil Paralelo preparou a produção Trajetória de Robert Prevost: de Chicago ao Vaticano. Assista gratuitamente.
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