Pesquisador identificou diferenças no couro e nas costuras do manuscrito encontrado em 1947 nas cavernas do Mar Morto.

Os evangelhos narram que Jesus entrou em uma sinagoga de Nazaré, cidade onde foi criado, abriu o livro do profeta Isaías e leu em voz alta para os que estavam presentes. Era o século I.
O texto que ele tinha nas mãos era o mesmo que está preservado no mais antigo manuscrito bíblico completo já encontrado.
No entanto, o que ninguém sabia é que esse pergaminho havia sido dois rolos diferentes antes de se tornar um só.
O Grande Rolo de Isaías, descoberto em 1947 nas cavernas de Qumran, às margens do Mar Morto, tem 7,34 metros de comprimento e contém o Livro de Isaías quase na íntegra.
Data do século II a.C. Por décadas, estudiosos notaram diferenças entre a primeira e a segunda metade do manuscrito, mas nenhuma explicação definitiva havia sido encontrada.
O pesquisador Marcello Fidanzio, da Università della Svizzera Italiana, encontrou a resposta nas marcas físicas do próprio pergaminho.
As oito primeiras folhas apresentam dobras verticais e horizontais. As nove seguintes, apenas verticais. A folha que divide as duas seções foi cortada após a segunda coluna de texto, enquanto todas as outras têm três ou quatro.
O estado de conservação do couro também difere radicalmente entre as duas partes.
"O couro da primeira parte é um couro que aparenta ser mais antigo. Me lembra a pele da minha mãe de 80 anos. Na segunda parte, o couro é liso e sem rugas, como a pele da minha sobrinha de 14 anos."
A primeira metade do rolo acumula pontos de costura para remendar rasgos, remendos de couro e intervenções de conservação feitas ao longo do tempo. A segunda quase não tem nenhuma dessas marcas.
Um estudo anterior, realizado em 2021 pela Universidade de Groningen, já havia identificado diferenças sutis de caligrafia entre as duas seções usando inteligência artificial, sugerindo que os textos foram copiados por duas pessoas distintas.
De acordo com a pesquisa de Fidanzio, os pergaminhos não apenas foram escritos de forma diferente, mas produzidos de maneira separada, e só depois unidos em um único rolo.
Como a datação científica do pergaminho mede intervalos de décadas, não datas exatas, as duas seções podem ter sido produzidas com anos de diferença sem que os exames consigam detectar.
O pergaminho foi copiado nos anos anteriores ao fechamento da lista bíblica, e o estudo de sugere que o texto ainda estava em processo de formação naquele período.
Pelo menos sete mãos diferentes contribuíram com correções, ajustes e anotações ao longo de mais de um século de uso.
Alguns espaços em branco foram preenchidos posteriormente, possivelmente porque o escriba original copiava de um manuscrito danificado.
"O manuscrito não era estático, mas cheio de vida, pois evoluiu junto com aqueles que o liam".
A pesquisa acompanha o lançamento do livro "O Grande Pergaminho de Isaías: Uma Voz do Deserto", editado pelo próprio Fidanzio. O rolo será exibido na íntegra no Museu de Israel, em Jerusalém, pela primeira vez desde 1968.
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