Grupo jihadista busca instaurar um Estado islâmico no norte da Nigéria promovendo ataques, sequestros e massacres.

Na Nigéria, o país mais populoso da África, a fé pode custar a vida. Desde 2002, o grupo extremista Boko Haram conduz uma campanha de violência e perseguição que transformou o norte do país em uma das regiões mais perigosas do mundo para cristãos.
O nome, traduzido livremente do idioma hauçá, significa “a educação ocidental é proibida” e resume a essência do movimento: rejeitar tudo o que é visto como influência do Ocidente, da política à escola.
A organização surgiu em Maiduguri, capital do estado de Borno, fundada pelo clérigo Mohammed Yusuf, que pregava a criação de um Estado regido pela sharia, a lei islâmica.
O grupo começou como uma comunidade religiosa isolada, mas se transformou em um movimento armado disposto a derrubar o governo nigeriano e impor sua interpretação radical do islamismo.
Em 2009, o Boko Haram iniciou uma série de ataques coordenados contra delegacias e prédios públicos em Maiduguri. As forças de segurança reagiram, mataram Yusuf e anunciaram o fim do grupo.
No entanto, o movimento continuou sob o comando de Abubakar Shekau, que ampliou a violência.
Motociclistas armados passaram a atacar igrejas, escolas, bares e ônibus, matando policiais, fiéis e até líderes muçulmanos que se opunham à sua ideologia.
Em 2013, o governo dos Estados Unidos classificou o Boko Haram como organização terrorista internacional, citando ligações com a Al-Qaeda e o Estado Islâmico (ISIS).
Um ano depois, o mundo conheceu o grupo de forma brutal: em abril de 2014, militantes sequestraram mais de 200 alunas em Chibok, no norte da Nigéria.
O episódio gerou comoção global e inspirou a campanha #BringBackOurGirls, mas muitas das meninas seguem desaparecidas.
Em 2015, o Boko Haram declarou lealdade ao Estado Islâmico, criando o chamado Estado Islâmico da Província da África Ocidental (ISWAP).
A aliança dividiu o grupo: uma ala permaneceu sob o comando de Shekau, enquanto outra se integrou à nova estrutura jihadista.
Mesmo após a morte de Shekau, em 2021, ao detonar um explosivo cercado por rivais do ISWAP, a facção continua ativa e bem armada.
Hoje, militantes atuam em regiões fronteiriças de Chade, Níger e Camarões, levando o conflito para além das fronteiras nigerianas.
A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que 10 milhões de pessoas na região precisem de ajuda humanitária, e 2,5 milhões estejam deslocadas por causa da violência.
A ofensiva do Boko Haram tem um alvo: cristãos e igrejas. O grupo vê o Estado nigeriano como “governado por descrentes”, mesmo quando presidido por muçulmanos.
Ataques a vilarejos cristãos, sequestros de padres e destruição de templos se tornaram rotina.
Homens são mortos em praças públicas; mulheres e meninas, sequestradas e violentadas; templos, queimados.
De acordo com a organização Portas Abertas, mais de 100 mil cristãos foram assassinados desde 2009, e 18 mil igrejas foram destruídas.
Só em 2024, foram registrados 3.100 homicídios e centenas de sequestros motivados por fé religiosa.
Em junho de 2025, um ataque na cidade de Yelewata, no estado de Benue, matou cerca de 200 pessoas em um campo de desabrigados, entre elas, crianças e idosos.
“O que vi foi horrível. Corpos espalhados por toda parte”, relatou o padre Ukuma Jonathan Angbianbee à Ajuda à Igreja que Sofre.
Segundo a Comissão de Liberdade Religiosa Internacional dos EUA (USCIRF), a Nigéria apresenta “condições precárias de liberdade religiosa” e o governo tolera ataques contra cristãos.
O país é hoje o sétimo pior lugar do mundo para quem professa o cristianismo, segundo o ranking da Open Doors.
Em regiões como Pulka, 14 mil católicos deslocados, a maioria crianças, vivem em tendas improvisadas com pouca comida, água e medicamentos.
A fundação Ajuda à Igreja que Sofre (ACN) mantém frentes de apoio em 14 campos de refugiados e 13 comunidades de acolhimento, oferecendo alimentação, remédios e atendimento espiritual.
A Portas Abertas atua em projetos de reabilitação pós-trauma e socorro emergencial.
Apesar da escala da tragédia, o conflito tem pouca repercussão internacional. O tema voltou ao debate em 2025, quando o comediante americano Bill Maher criticou o silêncio da imprensa:
“Eles estão matando sistematicamente os cristãos na Nigéria. Queimaram 18 mil igrejas. É mais uma tentativa de genocídio do que o que está acontecendo em Gaza”.
A Nigéria reúne mais de 200 milhões de habitantes e divide suas fronteiras religiosas entre o norte muçulmano e o sul cristão.
Desde que 12 estados do norte adotaram oficialmente a lei islâmica (sharia) em 1999, as tensões se agravaram.
Hoje, regiões inteiras estão sob controle de milícias jihadistas, que desafiam o governo central e impõem restrições de culto e liberdade civil.
Enquanto líderes cristãos seguem sendo sequestrados e executados, parte dos militantes capturados é enviada a programas de “reabilitação” e liberada meses depois.
Para organizações humanitárias, sem intervenção internacional, o país corre o risco de ver o norte se transformar em um território controlado pelo extremismo religioso.
Mais de duas décadas após sua fundação, o Boko Haram segue ativo em várias regiões da Nigéria e países vizinhos.
O grupo mantém influência sobre áreas rurais, continua recrutando combatentes e representa um dos maiores desafios de segurança e estabilidade do governo nigeriano.
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