Defesa sustenta que foi suicídio e contesta a competência da Justiça Militar para julgar o caso.

São Paulo, 18 de fevereiro - O tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto ligou para o serviço de emergência.
"A minha esposa se matou com tiro na cabeça. Ela é policial militar feminino”.
A vítima era a soldado Gisele Alves Santana, 32 anos. Ela foi encontrada morta no apartamento do casal, na região central da cidade.
O caso foi registrado inicialmente como suicídio. A polícia civil afastou essa possibilidade hoje (18).
Mesmo dia em que Geraldo foi preso. Um comboio com agentes da Polícia Civil e da Corregedoria da PM chegou ao apartamento onde ele estava em São José dos Campos.
O mandado havia sido expedido pela Justiça Militar horas antes, com aval do Ministério Público. Ele foi indiciado por feminicídio e fraude processual.
Muitas contradições foram encontradas durante a investigação. O jornalista Roberto Cabrini entrevistou Neto e confrontou suas respostas com a versão dos investigadores.
Uma vizinha registrou ter ouvido o disparo às 7h28. A primeira ligação de Geraldo para o socorro foi às 7h57. São 29 minutos ainda sem explicação.
Questionado pelo jornalista, o militar disse que a vizinha "devia estar sonolenta e viu a hora errada."
O laudo dos exames realizados no corpo de Gisele apontou lesões no rosto e no pescoço compatíveis com uma pressão típica de enforcamento, além de marcas de unhas.
Para explicar as marcas, Geraldo sugeriu que poderiam ter sido feitas pela própria filha de 7 anos ao abraçar a mãe, ou que Gisele teria se machucado propositalmente antes de atirar em si mesma para incriminá-lo.
Manchas de sangue da soldado foram encontradas espalhadas por outros cômodos do apartamento, não apenas onde o corpo foi encontrado.
Outro exame que detecta resíduos de pólvora nas mãos após um disparo, deu negativo para ambos.
Para a investigação, isso sugere que Gisele não efetuou o disparo. O resultado negativo do tenente-coronel também não surpreende a investigação:
“havia uma janela de quase meia hora sem explicação”.
O militar disse que foi orientado por um socorrista a fazê-lo por causa da pressão alta. Policiais presentes no local afirmam o contrário, que ele foi orientado a não tomar banho.
A primeira ligação que fez após encontrar a esposa não foi para a família de Gisele. Foi para um desembargador, a quem chamou de "meu melhor amigo." A família da vítima só soube da morte por outros meios.
Mensagens enviadas por Gisele a uma amiga, divulgadas pela defesa da família, indicam o que ela pensava do relacionamento.
Em um dos trechos, ela escreveu: "Tem que controlar os ciúmes dele. Qualquer hora me mata."
A mãe de Gisele afirmou em depoimento que a filha vivia um relacionamento abusivo e que o oficial era controlador e violento.
Na entrevista a Roberto Cabrini, Geraldo negou todas as acusações. Descreveu o casamento como "maravilhoso, perfeito" e disse estar sofrendo "um linchamento virtual."
Sobre um vídeo em que aparece apontando uma arma para a própria cabeça enquanto ameaça se matar caso Gisele o deixasse, afirmou que as imagens são falsas, geradas por inteligência artificial.
Dois especialistas ouvidos pela reportagem de Cabrini concluíram que o vídeo tem entre 90% e 98% de chance de ser autêntico.
A defesa sustenta que foi suicídio e contesta a competência da Justiça Militar para julgar o caso. O inquérito segue em andamento.
Geraldo será levado ao Presídio Militar Romão Gomes, na capital.
Como um veículo independente, não aceitamos dinheiro público. O que financia nossa estrutura são as assinaturas de cada pessoa que acredita em nossa causa.
Quanto mais pessoas tivermos conosco nesta missão, mais longe iremos. Por isso, agradecemos o apoio de todos.
Seja também um membro da Brasil Paralelo e nos ajude a expandir nosso jornalismo.