Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostram que, desde 2018, as duas curvas caminham em direções opostas.

Atenção: este texto aborda suicídio e transtornos mentais. Se você está passando por dificuldades, encontrará ao fim indicações de onde buscar ajuda.
Em 2024, 126 policiais civis e militares tiraram a própria vida no Brasil. O número é menor do que os 137 registrados em 2023, mas ainda supera, com folga, os 46 mortos em confronto durante o serviço no mesmo período.
Pelo segundo ano consecutivo, o suicídio é a principal causa isolada de morte entre policiais no país.
Os dados são do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Para o Fórum, a redução de 8% nos casos é uma notícia positiva, mas não esconde um movimento de fundo: desde 2018, o número de suicídios entre policiais cresceu, enquanto as mortes por confronto caíram. As duas curvas caminham em direções opostas há sete anos.
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Entre os policiais civis, em 2024, o suicídio matou mais do que o confronto: foram 20 casos contra 14 mortes em serviço ou fora dele.
Entre os militares, a relação se inverte, 156 mortos em confronto contra 106 suicídios.
A média nacional é de 0,3 suicídios por mil policiais. Seis estados ficaram acima dessa marca:
Rio Grande do Sul (0,7);
Paraná e Mato Grosso do Sul (0,6 cada);
Piauí (0,5);
Ceará e Distrito Federal (0,4 cada).
Dez estados registraram alta em relação ao ano anterior. O Distrito Federal teve o maior crescimento: 400%.
O Anuário aponta seis fatores que aprofundam o adoecimento mental dos policiais:
assédio moral;
a cultura do "policial herói";
o desgaste pelo contato contínuo com situações de perigo;
a cobrança por metas;
o endividamento e a insegurança jurídica.
Há ainda um paradoxo. A Organização Mundial da Saúde recomenda limitar o acesso a armas de fogo como medida de prevenção ao suicídio.
Segundo o levantamento, para o policial, a arma é parte da identidade profissional e, muitas vezes, da renda extra. Afastá-lo dela significa afastá-lo da função.
O Anuário aponta ainda que o silêncio em torno do tema contribui para a subnotificação. As implicações no pagamento de seguros às famílias podem levar ao registro incorreto de suicídios como mortes por outras causas.
Os números reais podem ser maiores do que os divulgados.
O governo federal criou o Escuta SUSP, programa de atendimento psicológico online voltado a servidores da segurança pública, mas a iniciativa ainda opera de forma limitada.
Em São Paulo, a Polícia Militar mantém o Sismen, sistema próprio de saúde mental com programas de prevenção e atendimento.
O Fórum aponta que o caminho passa por monitoramento sistemático e políticas institucionais de cuidado.
O documento afirma que é preciso encarar o problema pelo que ele é: um grave indicador de que o Estado falha na proteção de quem é escalado para proteger a sociedade.
Se você ou alguém próximo estiver passando por um momento difícil, o CVV: Centro de Valorização da Vida oferece atendimento gratuito pelo telefone 188, disponível 24 horas.
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