Diocese local aguarda a íntegra da pregação para se manifestar formalmente.

O Padre Francisco Wilson se tornou alvo de uma denúncia por transfobia após declarações feitas em uma missa no último domingo (1º).
A denúncia, apresentada pela Associação Cearense de Diversidade e Inclusão (ACEDI), destaca que o sacerdote afirmou que "homem é homem e mulher é mulher".
“Agora, homem e mulher é pela ideia que você cria de você mesmo. Não interessa o seu corpo. Jesus não manda isso. O que Jesus diz: ‘homem é homem e mulher é mulher”, declarou o padre.
Enquanto as autoridades apuram se houve discurso de ódio, a Diocese local aguarda a íntegra da pregação para se manifestar formalmente.
De acordo com a entidade que formalizou a denúncia, as declarações ultrapassam os limites da liberdade religiosa.
Durante a cerimônia, o padre, que é da diocese de Quixadá (CE), defendeu que a identidade humana não deve ser pautada por ideias individuais ou sentimentos, mas pela biologia, afirmando que "Jesus não manda isso" ao se referir à transição de sexo.
O sacerdote também estendeu suas críticas a lideranças religiosas que apoiam direitos da comunidade LGBT e condenou o que chamou de doutrinação de crianças em instituições de ensino.
O ensinamento do padre cearense vai ao encontro das posições de alguns dos últimos papas da Igreja Católica. Em 2012, o papa Bento XVI afirmou que a ideologia de gênero faz o homem contestar sua própria natureza.
“Segundo esta filosofia, o sexo deixa de ser um dado originário da natureza que o homem deve aceitar. O homem passa a contestar a sua própria natureza”. (Discurso à Cúria Romana, 21/12/2012)
Já o papa Francisco, na carta Amoris Laetitia, declarou:
“A ideologia de gênero nega a diferença e a reciprocidade natural de homem e mulher. [...] É preocupante que algumas ideologias deste tipo, que pretendem responder a certas aspirações, procurem impor-se como um pensamento único que determine até mesmo a educação das crianças. Não se reconhece que o sexo biológico (sexo) e o papel sociocultural do sexo (gênero) podem ser distinguidos, mas não separados.” (n. 56)
A Polícia Civil de Quixadá apura se as falas configuram crime, enquanto a ACEDI sustenta que discursos de líderes religiosos podem incitar o preconceito.
Por sua vez, o Ministério Público informou que aguarda o relatório final do inquérito policial para decidir se apresentará uma denúncia formal à Justiça.
A Diocese de Quixadá adotou uma postura defensiva por meio de seu departamento jurídico.
O advogado Romero Lemos informou que o sacerdote foi convocado para esclarecer o contexto completo de sua homilia, ressaltando que a Cúria Diocesana pretende evitar medidas precipitadas baseadas em recortes isolados da fala.
Enquanto isso, a Delegacia de Polícia Civil de Quixadá reforçou a importância do depoimento de possíveis vítimas para dar prosseguimento ao caso.
A ideia de que homem e mulher são construções sociais, e não realidades biológicas, é explorada em uma das produções originais da Brasil Paralelo. Assista abaixo ao documentário Geração sem Gênero.
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