Pesquisa mostrou que primatas escolhem cristais entre outras pedras e os guardam como objetos de valor.

Um chimpanzé chamado Yvan passou mais de 15 minutos segurando um cristal de quartzo bem perto dos olhos. Os pesquisadores chegaram a pensar que ele era míope. Não era. Ele estava tentando enxergar o que havia do outro lado.
Esse detalhe é pequeno, mas resume o que um grupo de cientistas de universidades da Espanha e do Brasil descobriu ao observar nove chimpanzés em um santuário de primatas em Madri: a atração por cristais não é exclusivamente humana.
De acordo com os pesquisadores, isso pode explicar sobre como nossos ancestrais passaram a pensar sobre o mundo.
O ponto de partida da pesquisa foi arqueológico. Registros mostram que humanos coletavam cristais há 800 mil anos.
O detalhe curioso: esses minerais nunca foram modificados. Não viraram ferramentas, armas ou adornos. Foram simplesmente guardados.
Para entender por quê, os pesquisadores colocaram cristais de quartzo e pedras comuns diante dos chimpanzés e observaram o que acontecia.
O interesse por pedras comuns durou poucos minutos. Quando o cristal apareceu, todos os cinco animais do grupo foram até ele.
A fêmea mais forte do grupo, Manuela, tomou o cristal para si e brincou com ele sozinha em uma plataforma de madeira. Mais tarde, outro chimpanzé, Yvan, levou o cristal para dentro do dormitório.
Ficou guardado por dois dias. Para recuperá-lo, os pesquisadores precisaram negociar com o grupo e oferecer bananas e iogurte.
Em um segundo experimento, os chimpanzés foram colocados diante de uma pilha com pedras comuns e cristais misturados.
O resultado: selecionaram apenas os cristais, deixando todo o resto no gramado.
A explicação dos pesquisadores é que os cristais têm duas características que não existem em quase nenhum outro objeto natural: transparência em algo sólido e formas geométricas perfeitas, com linhas retas e superfícies planas.
Até então, o único objeto transparente que os primatas conheciam era a água. Ver luz atravessando uma pedra é algo que o cérebro simplesmente não espera.
"Agora sabemos que esses objetos únicos nos cativaram há 800 mil anos e podem ter influenciado nossa compreensão do mundo mais do que imaginávamos", afirmou o geólogo Juan Manuel García Ruiz, coordenador da pesquisa.
Alguns pesquisadores levantam a hipótese de que esse fascínio pode ter alimentado o pensamento simbólico.
Os autores do estudo são mais cautelosos: querem confirmar que a única atração dos cristais é estética. Mas reconhecem que o fascínio existe, é antigo e não é só nosso.
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