O estado possui seu próprio ecossistema criminal, impedindo a entrada do PCC e o CV

A megaoperação realizada no Rio de Janeiro no fim de outubro, a mais letal da história do estado, com 121 mortos, afetou negativamente o crescente poder do Comando Vermelho, a facção que hoje comanda o tráfico em boa parte do território brasileiro.
Mas um dado chama atenção. Entre os 27 estados do país, apenas três seguem fora do domínio do CV: São Paulo, o Distrito Federal e o Rio Grande do Sul.
Para especialistas, o caso do Rio Grande do Sul responde a condições sociológicas e de segurança específicas.
Segundo o sociólogo e professor da PUCRS Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo, o Rio Grande do Sul não tem presença estruturada do Comando Vermelho, mas isso não significa ausência do crime organizado.
O estado possui seu próprio ecossistema criminal. Entre as principais facções estão os “Bala na Cara” e “Os Manos”, que nasceram e se consolidaram dentro do sistema prisional gaúcho.
As cadeias do estado, explica o jornalista e cineasta Renato Dornelles, foram “loteadas” por grupos locais, o que impede a entrada de organizações de fora.
Especialistas afirmam que há também um componente cultural.
“Há uma espécie de pacto informal entre as facções daqui para não ceder espaço a grupos externos”, diz Dornelles.
O juiz Sidinei Brzuska, da Vara de Execuções Criminais de Porto Alegre, complementa:
“O Rio Grande do Sul é um Estado de forte tradição cultural, e isso se reflete até na forma como o crime se organiza”.
Essa cultura de independência explica por que, mesmo com a expansão nacional do CV desde os anos 1980, os grupos gaúchos permaneceram autônomos.
O Fórum Brasileiro de Segurança Pública estima que ao menos dez facções diferentes atuam no território gaúcho.
Essa multiplicidade cria uma espécie de equilíbrio forçado: nenhuma delas domina completamente o mercado, mas também não há espaço para uma invasão externa.
Enquanto o Comando Vermelho e o PCC expandiram suas redes nacionais, as facções gaúchas seguiram uma estratégia diferente: consolidar o controle no interior e nas periferias de Porto Alegre, onde o Estado é mais ausente.
O Rio Grande do Sul está distante dos grandes corredores logísticos do narcotráfico, como as rotas do Norte e do Centro-Oeste, o que reduz o interesse do CV em estabelecer bases fixas.
A Secretaria da Segurança Pública gaúcha também aponta a atuação coordenada das forças policiais como uma barreira importante.
“Esses fatores socioculturais e geopolíticos se somam à ação vigilante e contundente dos órgãos de segurança pública para manter o Estado fora do alcance de organizações como o CV e o PCC”, afirma a pasta em nota.
Embora o Comando Vermelho não tenha presença direta, ele mantém relações comerciais com grupos locais. Facções como os “Bala na Cara” compram drogas e armas do CV, mas as parcerias são pontuais.
Já “Os Manos” mantêm laços mais próximos com o PCC, mas também sem vínculo hierárquico, apenas uma relação de cooperação estratégica.
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