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Quem era o jovem que morreu após invadir jaula de leoa?

Assistente social que acompanhava o jovem afirma que ele tinha esquizofrenia e sonhava em “cuidar de leões”.

Por
Redação Brasil Paralelo
Publicado em
Jovem morto por leoa
Fonte da imagem: Reprodução

Na tarde de sábado, uma tragédia interrompeu a rotina do Parque Arruda Câmara, o zoológico conhecido como Bica, em João Pessoa (PB). Um jovem de 19 anos escalou a estrutura de segurança e entrou no recinto de uma leoa. Minutos depois, estava morto.

O parque foi imediatamente fechado, e o caso agora mobiliza autoridades, especialistas e a equipe do zoológico.

Quem era o jovem que pulou na jaula da leoa?

O jovem foi identificado como Gerson de Melo Machado, conhecido como “Vaqueirinho”. Segundo o Conselho Tutelar, ele tinha diagnóstico de esquizofrenia e vivia em situação de vulnerabilidade desde a infância.

  • Gerson chegou a um abrigo aos 10 anos, após ser afastado da mãe, que também tinha esquizofrenia.
  • Ele nunca foi adotado: quatro irmãos foram destinados à adoção.
  • Ao longo dos anos, acumulou passagens pela polícia e internações em centros socioeducativos.

De acordo com  a conselheira tutelar Verônica Oliveira, que o acompanhava desde os 10 anos, Gerson vivia episódios graves de instabilidade. Na última semana, havia sido detido duas vezes após tentar danificar caixas eletrônicos e apedrejar uma viatura.

Relatos indicam que ele dizia querer ser preso por estar com fome e sem lugar para dormir. Havia ainda um traço recorrente em seu comportamento: uma fascinação por leões e pela África.

Verônica relata que, em um dos episódios mais extremos, Gerson foi encontrado escondido no trem de pouso de um avião, acreditando que o voo seguiria para o continente africano.

“Gerson, meu menino sem juízo, quantas vezes, na sala do CT, você dizia a mim que ia pegar um avião para ir fazer um safári na África, para cuidar dos leões... Você ainda tentou, mas eu agradeci a Deus quando fui avisada pelo aeroporto que você tinha cortado a cerca e tinha entrado no trem de pouso do avião da Gol. Dei graças a Deus porque observaram pelas câmeras que havia um adolescente antes que uma desgraça acontecesse…”

Como ele entrou no recinto da leoa?

Gerson escalou uma parede de mais de 6 metros, passou pelas grades de segurança, usou uma árvore como apoio e entrou no recinto da leoa em poucos instantes.

Segundo a Prefeitura de João Pessoa, não houve tempo para intervenção da equipe do zoológico.

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A leoa será sacrificada?

A leoa envolvida no ataque se chama Leona. Depois do ocorrido, o zoológico publicou uma nota afirmando que não há qualquer possibilidade de sacrifício do animal.

“Leona está saudável, não apresenta comportamento agressivo fora do contexto do ocorrido e não será sacrificada”, disse o parque.

O veterinário Thiago Nery informou que o animal passou por um forte quadro de estresse e permanece em observação enquanto especialistas avaliam seu comportamento e bem-estar.

Parque fechado até nova ordem

A direção da Bica fechou o parque imediatamente após o incidente. A suspensão das visitas vai durar até o fim das investigações realizadas pela polícia e pelos órgãos responsáveis pela fauna.

O que se sabe até agora?

  • O caso é tratado como morte acidental, mas a polícia apura eventuais falhas estruturais ou de segurança.
  • A equipe técnica do zoológico acompanha Leona e revisa protocolos internos.
  • O Conselho Tutelar reforça que Gerson era acompanhado há anos e vivia situação crônica de vulnerabilidade social e de saúde mental.

Esquizofrenia atinge milhões e pesa sobre a família

A esquizofrenia é uma doença crônica que afeta quase 2 milhões de brasileiros. Não tem cura, mas tem tratamento. As crises são imprevisíveis e exigem monitoramento constante.

Um levantamento citado pelo SBT mostra como a condição impacta as famílias:

  • mais de 90% dos cuidadores deixam atividades diárias;
  • quase metade abandona o emprego;
  • muitos passam anos até chegar a um diagnóstico preciso;
  • a doença costuma surgir no fim da adolescência.

Especialistas explicam que o tratamento contínuo com medicação e psicoterapia reduz o número de crises. Quando isso falha, as crises podem colocar o paciente e outras pessoas em risco.

Leia o relato de Verônica Oliveirana íntegra

“Gerson, meu menino sem juízo, quantas vezes, na sala do CT, você dizia a mim que ia pegar um avião para ir fazer um safári na África, para cuidar dos leões... Você ainda tentou, mas eu agradeci a Deus quando fui avisada pelo aeroporto que você tinha cortado a cerca e tinha entrado no trem de pouso do avião da Gol. Dei graças a Deus porque observaram pelas câmeras que havia um adolescente antes que uma desgraça acontecesse...
Foram 8 anos acompanhando, lutando, brigando para garantir seus direitos. Quando você entrou na minha sala pela primeira vez, tinha apenas 10 anos. Eu e a conselheira Patrícia Falcão recebemos você das mãos da PRF, pois você foi encontrado na BR...
Desde então, toda a Rede de Proteção passou a me procurar quando qualquer coisa acontecia com você. Eu nunca consegui ver você como as redes sociais te desenhavam. Eu conheci a criança que foi destituída do poder familiar da mãe e foi impedido de ser adotado, como os outros 4 irmãos foram. E o que a responsável pela instituição de acolhimento justificou foi: quem iria adotar alguém como você?
Você só queria voltar a ser filho de sua mãe, que é esquizofrênica e não tinha condições nenhuma de cuidado. Sua avó também com problemas mentais. Mas a sociedade, sem conhecer sua história, preferiu te jogar na jaula dos leões”.

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