A Constituição do país determina que a imprensa deve propagar valores islâmicos e ser do Estado.
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Mesmo sendo um dos países mais relevantes na política do Oriente Médio, e por consequência do mundo, as informações sobre o Irã vêm quase sempre de grandes veículos de mídia ocidentais.
Agora, o Irã vive momentos de tensão recebendo ameaças militares da maior potência do mundo. Ainda assim, dificilmente sabemos o que está sendo dito pelos jornais locais.
Parte do motivo para o ocidente não procurar entender o que acontece no Irã pelos veículos de imprensa iraniana é o controle do governo sobre a mídia do país.
No preâmbulo da Constituição iraniana de 1979, os revolucionários islâmicos determinaram que os meios de comunicação devem promover a ideologia do regime:
“Os meios de comunicação de massa, rádio e televisão, devem servir à difusão da cultura islâmica em busca do curso evolutivo da Revolução Islâmica. Para este fim, a mídia deve ser utilizada como um fórum para o encontro saudável de diferentes ideias, mas deve abster-se estritamente da difusão e propagação de práticas destrutivas e anti-islâmicas.”
O governo tem o monopólio constitucional dos canais de rádio e televisão legais. Existe uma lista de jornais controlados por diferentes órgãos do Estado, como a IRNA, canal “oficial” do regime e a Javan, da Guarda Revolucionária.
As leis do país determinam que esses órgãos são diretamente controlados pelo Líder Supremo, atualmente o aiatolá Ali Khamenei.
Apenas ele tem o poder de “nomear, destituir e aceitar a renúncia” do chefe da rede de rádio e televisão da República Islâmica do Irã.
Além do controle do rádio e da televisão, a Lei da Imprensa de 1986 autoriza que o regime verifique se autores “prejudicam a República Islâmica”, “ofendem o clero e o Líder Supremo” ou não “disseminam informações falsas”.
Segundo a ONG Repórteres Sem Fronteiras, o país é um dos mais repressores do mundo quando se trata de liberdade de expressão.
Este ano, cerca de 12 jornalistas estão presos pelo regime, segundo a organização. Até o momento não há registros de assassinatos, mesmo com a repressão aos protestos de janeiro.
Existem alguns canais privados que transmitem em farsi, idioma local, através de satélite. Atualmente mais de 70% do país tem antenas para acessar a televisão em satélite.
No entanto, os iranianos estão começando a se informar cada vez mais por meio das redes sociais.
Aproximadamente 91% da população do país usa frequentemente as redes sociais, segundo dados de 2022.
Algumas das plataformas mais populares, como o X, Facebook e Instagram, estão oficialmente bloqueadas para os cidadãos comuns, embora as autoridades tenham contas.
Para acessar esses canais, a população costuma usar sistemas de VPN, que são capazes de furar as restrições do governo.
Mesmo assim, o regime continua controlando o acesso da população a esses sistemas. Um dos casos mais emblemáticos aconteceu durante a repressão aos protestos deste ano.
Na busca por tentar conter as manifestações, o governo simplesmente desligou a internet em quase todas as regiões do país.
O tráfego de pessoas acessando as redes chegou a cair para cerca de 3% do que é registrado normalmente.
Ainda assim, usar a internet na época era considerado crime pelo governo e podia ser punido com multas e até dois anos de prisão.
A pesquisadora Farzaneh Badiei, disse ao jornal NPR que o governo costuma agir com ainda mais violência quando não é monitorado pela população com acesso às redes:
“Sempre que o governo derruba a internet, eles mataram muito mais pessoas do que quando a população tinha acesso à rede e podia denunciar e transmitir ao vivo… É por isso que ter acesso a uma internet que não pode ser desligada é um viabilizador dos direitos humanos."
A mídia do ocidente não busca informações com os veículos iranianos por saber que eles trarão apenas a visão do governo, no entanto coberturas sobre outros países também ignoram os locais.
Dificilmente encontramos informações de jornais locais sobre acontecimentos em praticamente todos os países.
Na realidade, as informações que são repassadas pela grande mídia vêm de poucos conglomerados que controlam quase todo o fluxo de informações.
Um artigo divulgado pela revista New Internationalist na década de 1980 comenta que quatro grandes empresas eram responsáveis por cerca de 90% de todas as informações divulgadas ao redor do mundo.
As Quatro grandes, como o artigo chama, seriam: United Press International, Associated Press, Reuters e Agence France Presse.
Por terem milhares de jornalistas espalhados pelo mundo, esses contam com a capacidade de reportar eventos com mais profundidade do que outros veículos.
Eles então alimentavam toda a cadeia internacional de informações, servindo de base para matérias da mídia Mainstream.
Até grandes empresas de comunicação poderosas em seus países, como é o caso das redes brasileiras, costumam aproveitar as informações produzidas pelas quatro grandes.
Com o avanço da internet aconteceram mudanças na forma como nos comunicamos e consumimos informações.
Apesar dessas transformações, até os dias de hoje é possível perceber que a maioria dos veículos costumam citar as informações dessas empresas em seus portais.
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